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OPINIÃO ][ O voo da macaúba
Data de Publicação: 9 de julho de 2026 14:34:00 Após 35 anos de pesquisa nacional, a macaúba passa do extrativismo ao topo da corrida global pelo combustível sustentável de aviação.
Resumo
Palmeira nativa do Brasil com alto rendimento de óleo, a macaúba consolidou-se como rota estratégica para o combustível sustentável de aviação (SAF). A ciência brasileira viabilizou a domesticagem e o cultivo da espécie, abrindo caminho para aportes bilionários e revelando o potencial do país na bioeconomia global.
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Frutos da macaúba contêm
alto teor de óleo (Foto: Embrapa)
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Por Roney Fraga Souza e Ricardo Vargas-Carpintero*
Palmeira exuberante, com mais de 20 metros, copas em pluma e enormes cachos que marcam a paisagem tropical, a macaúba é coisa brasileira há séculos. Batizada pelos povos indígenas muito antes de despertar o interesse de cientistas e investidores, a macaúba (Acrocomia aculeata, ou fruto da casca amarela, em tupi) é uma palmeira nativa do Brasil, comum no Cerrado e em áreas de pastagem. Da polpa e amêndoa dos cachos de frutos pequenos, menos de seis centímetros, se extrai óleo, destinado às indústrias de alimentos, cosméticos, sabões e biodiesel. É um caso de sucesso e, após 35 anos de pesquisa de ponta contínua em universidades públicas, virou matéria-prima real para a descarbonização da aviação global.
Os elementos básicos da cadeia são nossos: a planta, o conhecimento, as instituições. Além do financiamento à pesquisa, o entrave a vencer agora é articular, de forma autônoma, o caminho do campo e do laboratório ao mercado.
Quando investidores dos Emirados Árabes chegaram em 2023 para anunciar uma biorrefinaria de R$ 15 bilhões na Bahia, traziam um elogio: o trabalho mais difícil já estava feito no Brasil. A ciência básica estava resolvida; faltava a engenharia aplicada. Se a parte mais cara e arriscada já tinha sido vencida aqui, por que o passo seguinte precisou de capital externo para sair do papel? E quantas outras macaúbas estão paradas no mesmo ponto?
Na COP28, em Dubai, companhias do mundo firmaram a meta de emissões líquidas zero até 2050 e elegeram o combustível sustentável de aviação (SAF) como o caminho prático: um querosene biológico que entra na turbina sem adaptação. A macaúba foi escolhida por ser nativa, render de sete a dez vezes mais óleo por hectare do que a soja, suportar solo degradado e se integrar a lavouras e à pecuária.
A ciência brasileira lapidou o conhecimento popular para viabilizar o cultivo da macaúba. Dos quase 700 artigos científicos sobre a planta indexados no Scopus, 85% têm ao menos um autor de instituições brasileiras. Dois pesquisadores dão rosto à frente: Sérgio Motoike, da Universidade Federal de Viçosa, e Carlos Colombo, do Instituto Agronômico de Campinas. Motoike e seu grupo resolveram o problema da dormência das sementes, gargalo que travava o plantio em escala. Colombo e sua equipe lideraram a caracterização genética da espécie e a seleção de plantas com mais óleo e menor porte. Sem essa rede, a macaúba ainda seria extrativismo. Com ela, virou cultura semi-domesticada e pronta para o campo.
Os primeiros passos comerciais vieram antes, em parte de fora: por volta de 2007, a Entaban, de capital espanhol, e a Acrotech, hoje parte da S.oleum, fizeram os primeiros plantios-piloto. A rota para a aviação foi desenhada na Alemanha. Entre 2011 e 2014, o Centre for Sustainability Management da Universidade Leuphana conduziu um programa para identificar uma matéria-prima de bioquerosene capaz de descarbonizar a aviação sem desmatamento; a Lufthansa, pressionada pela regulação europeia, acompanhava como parte interessada. A escolha recaiu sobre a macaúba.
"A pergunta deixou de ser se vamos fazer, e sim quanto tempo levaremos para conduzir essa coordenação por conta própria."
Em 2015, após essa pesquisa nasceu a Inocas, startup germano-brasileira com capital semente do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do Climate Investment Funds. A Inocas foi a primeira a plantar a espécie em escala comercial integrada à pecuária, em pastagens degradadas, hoje com mais de 2 mil hectares em Minas Gerais e presença no Pará. Em paralelo, a ACROS forneceu mudas em escala.
O salto industrial veio em 2023, quando a Acelen Renováveis anunciou, junto à biorrefinaria de Mataripe, o plantio de 144 mil hectares de macaúba na Bahia e em Minas. O Brasil ofereceu a planta, a ciência e a terra. Brasil e Alemanha viabilizaram um projeto piloto de plantio. Os Emirados Árabes financiaram a indústria.
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Palmeira nativa pode atingir 20 metros (Foto: Embrapa)
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Esse padrão de coordenação não foi só comercial, mas de pesquisa. Com financiamento alemão, Johannes Moessinger, da Universidade de Hohenheim, percorreu o Brasil e o Paraguai para mapear a pesquisa sobre Acrocomia, gênero a que pertence a macaúba. A continuidade coube ao Acrocomia Hub, grupo de pesquisa de Hohenheim.
Foi preciso um alinhamento de interesses internacionais (pacto climático, demanda europeia, capital árabe) para que a fase piloto, o lançamento comercial e o escalonamento acontecessem. Que lições essa história deixa para uma política de inovação que permita ao Brasil gerar valor dos próprios bioprodutos, sem esperar outro alinhamento planetário para viabilizar a próxima macaúba?
A primeira lição é de autoconfiança. A bioeconomia é uma rota tecnológica ajustada ao Brasil, e estamos nela há longa data. O Proálcool entregou o etanol mais barato do mundo, com as universidades gerando ciência, a Petrobras como compradora-âncora e o BNDES financiando a destilaria. Cinco décadas depois, o país é competitivo globalmente em biocombustível, agricultura tropical e celulose plantada, e a macaúba aparece como próxima fronteira desse mesmo paradigma.
A história mostra que a rota funciona, mas falta refinar o que ainda não aprendemos. Na macaúba, esse aprendizado ainda é parcial. O Brasil já tem programas que tratam o biocombustível como prioridade, do RenovaBio ao ProBioQAv, mas falta a costura que ligue, com a agilidade necessária, ciência madura, capital de risco, demanda firme e empresa-veículo num mesmo ciclo.
Há quem diga que isso é apenas a divisão internacional do trabalho funcionando: o Brasil entrega clima, terra e ciência agronômica; o resto do mundo entrega capital e demanda. Mas essa divisão não é estática. O Brasil já subiu degraus toda vez que articulou pesquisa, regulação e indústria: hoje vendemos tecnologia agropecuária e etanol, não só matérias-primas.
A macaúba acrescenta um aprendizado a essa lista ao deixar visível onde a costura nacional ainda falha. O ativo continua aqui: a palmeira nativa, a ciência madura, o agricultor brasileiro. A próxima espécie da biodiversidade brasileira com potencial industrial encontrará um país com mais uma rodada de coordenação aprendida. A pergunta deixou de ser se vamos fazer, e sim quanto tempo levaremos para conduzir essa coordenação por conta própria, sem abrir mão da cooperação internacional que nos trouxe até aqui.
*Roney Fraga Souza é professor da Faculdade de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) ; Ricardo Vargas-Carpintero é pesquisador no Departamento de Recursos de base biológica na Bioeconomia, Instituto de Ciências Agrícolas da Universidade de Hohenheim (Alemanha).
Macaúba — Bioeconomia — Combustível Sustentável de Aviação — SAF — Inovação Agrícola — Descarbonização
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