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EPITÁFIO – Amigos do Dr. João Nelly exaltam sua qualidade de grande brasileiro e homem de visão
Data de Publicação: 27 de fevereiro de 2024 09:00:00 Morto na semana passada, aos 96 anos, o Dr. Nelly trabalhou até os 90 anos de idade. Com visão de estadista e muito além de seu tempo, impulsionou regiões até então impróprias para o cultivo de frutas, como o Vale do Rio São Francisco, hoje uma das maiores exportadoras de frutas do Brasil. Centro-Oeste Farm News pediu para alguns de seus amigos falarem um pouco sobre este grande baiano. As mensagens são um breve Raio X de quem foi o Dr. Nelly
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O Dr. Nelly foi um dos grandes incentivadores e realizadores do que é hoje,
social e econômico, o Vale do São Francisco e de outras regiões semiáridas
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Por Antônio Oliveira
O Brasil vive, atualmente, com grande falta de valores humanos, de homens e mulheres com visão além do seu tempo e que extrapolam as fronteiras do “Eu”. Assim, quando Deus chama de volta para a sua Grande Casa, homens e mulheres desta envergadura moral e intelectual e que vêm ao mundo a cada século, o prejuízo é muito grande para o desenvolvimento social, econômico, político, tecnológico e científico. E para a Humanidade. Homens como o grande Engenheiro Civil, Jornalista e empreendedor baiano Dr. Geraldo Rocha; o banqueiro Amador Aguiar; o empresário Francisco Matarazzo; os Ermírio de Moraes. Mais recentemente o grande baluarte da agricultura brasileira, Alysson Paolinelli.
Na semana passada, mais um destes, o outro grande baiano, Dr. João Nelly, retornou para a Grande Pátria (clique aqui para ler matéria), deixando um legado de desenvolvimento muito grande principalmente na agricultura irrigado do Vale do São Francisco, região já vista, no início do século passado, por Geraldo Rocha como um dos maiores celeiros do mundo. Isto ele escreveu isto, após percorrer os vales dos principais rios do mundo, no livro “Rio São Francisco: fator precípuo da existência do Brasil”, obra que inspirou a criação da Suvale, que depois se transformou em Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (que depois, no Governo Federal que antecedeu o atual, se desvirtuou, passando a ser plataforma da política partidária mesquinha. Quiçá, um dia volte à suas origens.)
Tal como o Dr. Geraldo Rocha, o Dr. Nelly viu no Vale do São Francisco, justamente no trecho em que se via mais carências sociais, uma grande fonte de exploração econômica: a fruticultura irrigada.
Eu pedi à alguns colegas e amigos dele que escrevessem algo em homenagem póstuma a estre brilhante visionário.
Os textos:
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“Homem incansável”
O dia 23 de fevereiro deste ano nos deixou muito triste. O Brasil perdeu um de seus grandes valores. A Bahia um de seus filhos que contribuiu muito para o desenvolvimento da parte que era até então esquecida, dentro do Estado, no entanto que era chamada de além São Francisco, disseminando conhecimento, aceitando desafios e enfrentando-os com galhardia. E nós perdemos um Amigo e um Mestre.
O conheci em janeiro de 1969, assim que deixei os bancos universitários. Ele era chefe da Agência da Superintendência do Vale do São Francisco – SUVALE, em Juazeiro (BA).
Desde o primeiro contato fiquei impressionado com seu discernimento, conhecimento, determinação, entusiasmo, sua experiência e vivência que tinha da Bacia Hidrográfica do São Francisco. Ele havia participado, com a equipe do Bureau of Reclamation dos Estados Unidos - que tinha um tratado de Cooperação com o Brasil -, do inventário do potencial de áreas irrigáveis do Vale do São Francisco todo, à época, no nível do conhecimento e da tecnologia disponível era de 3.000.000 de hectares.
Desde o primeiro contato senti a vontade e determinação dele em compartilhar com todos seus conhecimentos e experiências.
Quis o destino que, em 1975 eu assumisse a diretoria Técnica da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco – CODEVASF recém criada. Não tive dúvida em convidar o Dr. João Nelly de Menezes Regis para assumir a Gerência do Departamento Técnico, o que prontamente aquiesceu e prestou excelentes trabalhos e mais do que isso transferiu seus conhecimentos aos novos colaboradores da Empresa. Mas, sua determinação e apego ao trabalho mais próximo do campo e de seu Estado natal falou mais alto e se mudou para Salvador.
Sua inquietude o levou a deixar o serviço público e integrar a iniciativa privada na área de consultoria onde prestou grandes trabalhos aos projetos de irrigação em que ele esteve à frente. Passado algum tempo, ele na iniciativa privada, ingressei, também, nela na mesma área. Éramos concorrentes, mas nunca nos digladiamos, pelo contrário até trocávamos ideias e experiências. Tamanho era o desapego material desse profissional.
Esse homem incansável e casado com a causa da irrigação e do desenvolvimento do Vale do São Francisco, constantemente nos telefonava, trocando ideias e mais do que isso sempre propondo alternativas de produtos de alto valor capazes de contribuir para o enriquecimento do Vale e da sua população.
Pouco antes de sofrer o AVC, que reduziu muito sua capacidade de proposições e estudos, trocávamos telefonemas, falando o potencial a cacauicultura irrigada, dos estudos que tinha concluído das grandes perspectivas que tem as oliveiras nessa região do Brasil. Esses são uns dos poucos exemplos da determinação desse brasileiro. Oxalá tivéssemos alguns Nelly a mais, este país teria avançado muito mais.
Se hoje temos uva, manga, entre outras fruteiras o ano todo nas gondolas dos supermercados deste país, deve-se ao pioneirismo desse homem. Na década de 1960 ele já estimulava a plantação de uvas no submédio São Francisco, onde está Juazeiro e Petrolina, até hoje lembro do entusiasmo com que nos levou a visitar o Senhor Manuel espanhol, que foi um dos pioneiros que aceitou os desafios que o Dr. Nelly incentivava, e hoje a região é até produtora de vinho. Essas transformações que agregam valores.
Era um sonhador, mas lutava para que seus sonhos se tornassem realidades, e conseguiu que muitos deles deixasse marca indelével na agricultura irrigada deste país e de seu Estado Natal.
Hoje, eu como Secretário de Estado de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural do Distrito Federal, utilizo muito dos ensinamentos desse grande baiano e de seu conterrâneo Pedro do Carmo Dantas que no período em que eu estava Diretor Técnico da Codevasf, ele era o secretário dessa pasta. Nós o perdemos mas o céu está um júbilo por receber essa alma.
Fernando Rodrigues, Engenheiro Agrônomo, Secretário de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural do Distrito Federal
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“Excepcional Engenheiro”
Dr. João Nelly foi um visionário, um homem que teve a capacidade de antecipar um futuro glorioso para a Agricultura Irrigada do Vale do Rio São Francisco.
Aliado a isso, tinha um apetite excepcional para o trabalho, mesmo ainda no limiar dos seus 90 anos.
Com isso, sua visão de planejamento Agrícola se soltava, sempre propondo inovações e novas tecnologias, como fez ao longo de toda a sua vida.
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| Claudio Arraes ao lado do Dr. Nelly (Foto: Acervo pessoal) |
Sinto-me honrado em ter trabalhado com ele desde 1988, quando pude acompanhar em detalhes o seu processo produtivo e a sua inesgotável fonte de novas ideias.
Além de excepcional engenheiro, dotado dos mais diversos conhecimentos, tem-se que ressaltar o seu lado humano, bastante generoso, desprovido de vaidade e sempre disposto a ajudar e ensinar aos colegas de profissão.
Nelly já está fazendo falta!!!!!
Claudio Arraes, Engenheiro Civil
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“Cacau no semiárido”
Nosso eternamente jovem, colega e amigo Dr. Nelly, como nós sempre carinhosamente o chamávamos. Dr. Nelly, pois sempre teve o cuidado de ensinar a todos, compartilhar as suas experiências e principalmente suas inovações, sempre surgindo com ideias e coisas novas.
Tivemos o prazer, primeiro em conhecê-lo, em agosto de 1996, quando entramos na empresa que, após sair da área pública, em muito contribuiu para impulsionar a área de irrigação, desde estudos pedológicos, estudos de viabilidade, estudos de mercado, anteprojetos, projetos básicos e executivos, fiscalização e gerenciamento de obras e empreendimentos, operação e assistência técnica rural. Sempre participando em todas as fases, e com a grande virtude de trazer profissionais qualificados para participar das atividades e ampliar a distribuição do conhecimento e da criatividade para todos os colegas.
Passamos a trabalhar juntos mais intensamente, no estudo de viabilidade do Canal do Sertão Alagoano entre finais de 2000 a meados de 2003. As alternativas que eram previstas ser estudadas não tinham viabilidade, porém com a paciente e intensa participação de nosso professor, paralelamente à ampliação dos estudos de solos e das características locais, a grande preocupação com o planejamento agrícola compatível com as condições locais foi relevante.
As diferenças encontradas ao longo dos 300 km, levaram a propor diferentes modelos envolvendo não só irrigação, mas a criação de caprinos e ovinos na porção inicial com produção de queijos, a bovinocultura leiteira na parcela central já tradicional, mas fortemente prejudicada pelos períodos secos, integrando com áreas de sequeiros no entorno, e a agricultura irrigada mais intensiva na região de Arapiraca. A associação era também voltada para a utilização do adubo gerado pela pecuária e maximizar a agricultura orgânica, redução de custos com defensivos, e melhor qualidade de vida aos trabalhadores e a população em geral.
O componente social sempre presente, prevendo-se não só regularizar a disponibilidade de água para as comunidades e cidades, mas prevendo-se vazões para pequenas irrigações ao longo do empreendimento.
A ideia de integração da irrigação com outras atividades, sempre presente, o fez desenvolver estudos e projetos para implementação piscícola, presentes em alguns dos planejamentos de empreendimentos e para perímetros já implantados.
Em 2004, nos surpreendeu a todos ao trazer a ideia da introdução da cultura do cacau irrigado no Semiárido. Através de um estudo de viabilidade para um perímetro na Bahia, contratado pela Codevasf, foi mobilizada uma equipe de especialistas, chegando-se na conclusão da alta produção associada às condições controlada, e já comprovada com plantios atualmente em produção.
Desenvolveu surpreendente trabalho de planejamento agrícola para as segundas etapas de perímetros nos estados do Piauí e Ceará através do DNOCS, mobilizando uma grande equipe de especialistas com visitas aos locais e realização de seminários envolvendo a comunidade técnica e de produção. Introduziu alterações substanciais para os sistemas “on-farm”, alterando a concepção anterior de entregar água pressurizada dentro dos lotes.
A infraestrutura para assegurar a comercialização sempre foi uma preocupação de nosso Dr. Nelly. Tivemos a grata satisfação ao saber que ele teve relevante e decisiva atuação para que o aeroporto de Petrolina tivesse o porte para permitir a exportação.
Mais recentemente, ao ver que a região oeste da Bahia, não tinha como expandir as atividades produtivas pela falta de opções de escoamento, estimulado pelo então deputado João Leão, amigo e admirador de Dr. Nelly, retomou a ideia do grande professor Vasco Neto do porto na Bahia e a ferrovia cruzando o estado. Porém, o porto de Campinhos não tinha calado para os novos navios, e as características das atuais ferrovias eram distintas, assim desenvolveu não só um estudo de pré-viabilidade, mas também, o lançamento do traçado em plantas na escala de 1:100.000.
Participou de reuniões com autoridades do país, e a Ferrovia Oeste-Leste e o Porto Sul também viraram realidade em fase de implantação.
Finalizando, essas são apenas algumas das experiências que convivemos com ele, mas não podemos deixar de comentar: a participação intensa em trabalhos de assistência técnica rural em perímetros em El Salvador, um meticuloso planejamento do aproveitamento de um empreendimento focado na parte ambiental; a introdução de oliveiras em áreas meticulosamente avaliadas; e o bicho da seda em áreas do norte da Bahia.
Agradecemos por ter te conhecido e vivenciado momentos inesquecíveis com nosso Dr. Nelly, e por estarmos compartilhando, como ele sempre fez.
Dr. Ulisses Fontes Lima, é Engenheiro Civil
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"Melhor do planeta"
Para vocês, novinhos, que ainda estão iniciando na irrigação, morreu o Eng. Agrônomo João Nely Regis, a quem a irrigação brasileira deve bastante!
Ele fundou perímetros de irrigação e teve pensamento arrojado. Tive a honra de trabalhar com ele, como jovem Engenheiro, e sempre tivemos ideias muito alinhadas!
É responsável, também, pela introdução do melão no Nordeste brasileiro, hoje o melhor do planeta!!!
Dr.: Rodrigo Ribeiro Franco Vieira, Engenheiro Agrônomo
Ao Dr. Nelly meus mais sinceros respeito e admiração por transformar uma região socialmente carente em grande produtora de alimentos, com melhor qualidade de vida para o seu povo. Que o Brasil tenha mais homens como o senhor.
(Antônio Oliveira)
Algumas das muitas homenagens recebidas em vida
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