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ESPECIAL ALGODÃO BAIANO (III) – Cotonicultura com as mais altas tecnologias, do plantio ao produto final

ESPECIAL ALGODÃO BAIANO (III) – Cotonicultura com as mais altas tecnologias, do plantio ao produto final

Data de Publicação: 1 de agosto de 2024 16:15:00 A trajetória de sucesso da cotonicultura no oeste da Bahia destaca a integração de ciência, tecnologia e sustentabilidade, com uma visão empreendedora que não só espera do Estado, mas também colabora com ele, com resultados altamente positivos para o contexto social e econômico da Bahia

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Vista parcial da área de beneficamento do algodão na Zanotto Cottom (Foto: Antônio Oliveira)

 

 

Sala de análise da fibra no Centro de Análise da Abapa (Foto: Ant^}onio Oliveira)

 

 A trajetória de sucesso da cotonicultura no oeste da Bahia destaca a integração de ciência, tecnologia e sustentabilidade, com uma visão empreendedora que não só espera do Estado, mas também colabora com ele, com resultados altamente positivos para o contexto social e econômico da Bahia

 

Por Antônio Oliveira

Seguimos com a nossa série de matérias sobre o case de sucesso que é a cotonicultura baiana, mais precisamente a que se pratica no Cerrado baiano, na região oeste da Bahia. Mas antes, se não leu as duas primeiras partes deste folhetim jornalístico e literário, clic aqui para ler a primeira parte e aqui para a segunda parte.

Atendendo ao convite deste site, o presidente do Sistema Faeb/Senar, Humberto Miranda, falou sobre o algodão baiano. Ele destacou o crescimento notável da cultura na Bahia, especialmente na região oeste, responsável por 98% da produção estadual. Segundo Miranda, esse sucesso é resultado do empenho dos produtores em integrar ciência e tecnologia a um robusto projeto de sustentabilidade, promovendo uma evolução significativa no setor.

Humberto Miranda, presidente do Sistema Faeb/Senar)

Os produtores baianos têm feito constantes investimentos em pesquisa e inovação, o que se reflete diretamente na produção e na produtividade. Historicamente, a Bahia possui uma das maiores produtividades de algodão do Brasil, além de ser reconhecida pela alta qualidade de sua fibra, considerada uma das melhores do mundo.

- A cultura do algodão na Bahia não apenas se destaca pela sua produção eficiente e de alta qualidade, mas também pelo compromisso com a sustentabilidade - afirmou Miranda.

- Cotonicultores baiano pensam no meio ambiente  também na economia regional, já que a cultura exerce um importante papel social, gerando emprego e renda - disse

Esse enfoque sustentável, ainda conforme o dirigente classista, não apenas preserva os recursos naturais, mas também fortalece a economia local, proporcionando benefícios sociais significativos. O compromisso dos produtores com práticas sustentáveis demonstra que é possível aliar crescimento econômico à responsabilidade ambiental, consolidando a Bahia como um dos principais polos algodoeiros do país.

Voltemos à minha narrativa.

A colheita da atual safra do algodão baiano (2023/2024) teve início no dia 1º de maio no Sudoeste da Bahia, onde predomina a cotonicultura familiar, produzindo 2% do algodão baiano (pouco mais que 5 mil hectares)  e no dia 16 deste mesmo mês  na região do Cerrado, responsável por 98% da produção baiana de algodão. Conforme a Abapa, na região oeste foram plantados na atual temporada agrícola 339.721 hectares da fibra, sendo 242.489 hectares de sequeiro e 97.231 hectares de algodão irrigado. Na safra passada, a área plantada no oeste da Bahia foi de 312,5 mil hectares, com uma produtividade média de 330,8 arrobas por hectare de algodão em caroço. A produção de algodão em pluma resultou em 635,8 mil toneladas. A expectativa que nesta temporada o algodão tenha a mesma produtivada que a temporada passada.

Vamos nós.

Foi isto e muito mais que nós, jornalistas da região e de alguns estados brasileiros tivemos a oportunidade de presenciar in loco durante os dias 19 e 20 no rod-show “Rota da Fibra” e “Dia do Algodão”, este um mega dia de campo do algodão realizado na região de Placas, no Cerrado do território barreirense, próximo à divisa entre Barreiras (BA) e Ponte Alta do Bom Jesus (TO).

Após visita a colheita do algodão na Fazenda Agro Basso, nós, jornalistas que integramos a caravana do “Rota da Fibra”, fizemos mais 3 visitas. Seguimos, aqui, o caminho natural do algodão – plantio, manejo, colheita, beneficiamento, análise laboratorial da qualidade da fibra.

Entrada do algodão in natura na "piranha", maquina "desmonta"
o algodão e separa a pluma do caroço (Foto: Antônio Oliveira)

E estamos, então, em visita a algodoeira Zanotto Cottom, criada em janeiro de 2012 por Dionísio Zanotto, que chegou a região há 43 anos, sendo um dos pioneiros da exploração econômica do Cerrado baiano. O grupo, hoje liderado por duas filhas, Alessandra e Fernanda Zanotto, cultiva grãos e fibra na região. Vale lembrar que a Alessandra, além de vice-presidente e futura presidente da Abapa, sucedendo Luíz Carlos Bergamaschi, é uma das maiores lideranças femininas do agro brasileiro, inclusive com projeção internacional. A Zanatto é uma das muitas famílias de migrantes no oeste da Bahia onde se registram cases de sucesso na sucessão familiar. “Atualmente, nosso pai só nos supervisiona”, disse-me ela.

Rolos de algodão in natura a espera de beneficiamento (Antônio Oliveira)

Além de sermos recebidos pela Alessandra, fomos recebidos também pela sua irmã Fernanda, que administra a algodoeira. Curioso é que nenhuma das duas têm formação acadêmica em ciências agrárias ou administração de empresas, como é praxe entre famílias de agropecuaristas. A Fernanda fez Direito e a Alessandra chegou a cursar arquitetura.

A Algodoeira Zanotto é responsável pelo beneficiamento do algodão cultivado pelo grupo e por muitas outras fazendas de cotonicultura da região. Beneficia 250 toneladas por dia. A agroindústria recebe o algodão em rolos com média de 2.200 quilos, separa o caroço da pluma, limpa-a, enfarda a produção para a comercialização nacional e internacional e envia amostras para análise no laboratório da Abapa em Luís Eduardo. Esta é a etapa que antecede o comércio da fibra. Os caroços do algodão são devolvidos ao produtor-cliente da algodoeira, que os transformam, em outro processo em ração animal e óleo coméstivel.

Há várias outras algodoeiras na região.

A epopeia familiar dos Zanotto no Cerrado baiano

Em conversei com a Fernanda.

Fernanda descreveu a jornada da sua família como desafiadora e um verdadeiro ato de coragem. Dionízio Zanatto buscava algo melhor e encontrou no Cerrado baiano uma oportunidade de crescimento. No início, as terras tinham valores menores, mas a vontade de crescer e desbravar foi o motor para essa mudança.

- Não foi um começo fácil - lembra Fernanda.

Ao comemorar em 40 anos na Bahia, os Zanotto, conforme Fernanda, muitas memórias e emoções vieram à tona. Ela relembrou a falta de estrutura, de maquinário e a distância.

- Hoje temos Luiz Eduardo como apoio, mas naquela época, o lugar mais próximo era Barreiras - conta.

A falta de mão de obra, tecnologia e comunicação também foram grandes desafios. Para se comunicar com a família no Paraná, os pais de Fernanda enfrentavam grandes dificuldades.

As irmãs Alessandra e Fernanda: "toca a bola para a frente" (Foto: Antônio Oliveira)

Os desafios climáticos também marcaram a trajetória da família, com safras excelentes em alguns anos e frustrações em outros devido a problemas climáticos e pragas. Apesar dessas dificuldades, a família sempre buscou somar forças, melhorar e evoluir. Fernanda destaca que os filhos, que saíram para estudar, retornaram para se juntar ao negócio, honrando o trabalho dos pais e contribuindo para a produção e a geração de empregos.

- Nos sentimos desafiados a manter e melhorar isso para que a próxima geração receba algo bom, algo que tenha história para contar - afirma.

Eu perguntei também sobre a diversificação no campo, acrescentando o algodão. Fernanda contou que, na época da ferrugem da soja, uma praga que trouxe muitos problemas, seu pai decidiu introduzir o algodão como cultura alternativa. Ele começou com 100 hectares e essa decisão foi crucial.

- Ele (Dionísio Zanatto) conta que os 100 hectares foram a salvação da lavoura - lembra Fernanda.

A pluma depois de benefiada e pronta para embalagem para o comércio
e para a análise de sua qualidade (Foto: Antônio Oliveira)

A produção de algodão permitiu salvar o que a soja não havia produzido. Desde então, a família continuou a se aperfeiçoar no cultivo do algodão, desenvolvendo um verdadeiro amor pela cultura.

- É uma cultura melindrosa, trabalhosa, mas que enche a gente de orgulho - diz.

Fernanda expressa orgulho pelo fato de o Brasil ser o maior exportador de pluma de algodão e saber que sua família contribui para esse número.

- Precisamos bater no peito e nos orgulhar do algodão que produzimos - declara.

Quando perguntada se valeu a pena a epopeia familiar, Fernanda respondeu sem hesitação:

- Valeu muito a pena e esperamos passar isso para os nossos filhos para que eles façam ainda mais e honrem toda essa história que meu pai construiu nesses anos.

Assim, a trajetória da família Zanotto no Cerrado Baiano é um exemplo de coragem, inovação e sucesso, que promete inspirar futuras gerações.

Sala de análise da fibra no Centro de Análise da Abapa (Foto: Ant^}onio Oliveira)

Um centro de excelência no Cerrado

Seguimos agora, na trilha do algodão, para a etapa que antecede ao comércio da pluma nos mercados nacional e internacional: a análise da qualidade da fibra produzida na região. O Centro de Análise de Fibras da Abapa, localizado em Luís Eduardo Magalhães, é um dos melhores do Brasil e o maior da América Latina e atende 100% dos cotonicultores da Bahia, conforme a Abapa. A partir da safra 2020/2021 ultrapassou fronteiras, atendendo toda a região do MATOPIBA.

Lá fomos recebidos por Sérgio Alberto Brentano, gerente do Centro.

A capacidade do Centro é de processamento de 25 mil amostras de algodão/dia, usando uma série de 12 equipamentos de High Volume Instrument (HVI) da marca Uster, modelo M1000, considerada o estado da arte em análise instrumental de algodão. Nove destas máquinas possuem dual color, os chamados “colorímetros duplos” (Retrofit), tecnologia que permite realizar quatro leituras de cor e impurezas, em uma única amostra, melhorando a reprodutibilidade dos resultados obtidos.

Ainda conforme a Abapa, a partir de 2016, o Centro se inseriu no programa Standard Brazil HVI (SBRHVI), implantado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa). Esta ação visa garantir a padronização da análise de fibras no Brasil e a qualidade dos resultados aferidos. Ele também possui Sistema de Gestão da Qualidade, baseado na norma NBR ISO/IEC 17025:2017, pela qual todos os processos e registros, desde o recebimento das amostras até a divulgação dos resultados, são padronizados e rastreáveis com a utilização de softwares, afirma a Abapa.

Entre os meses de agosto e outubro, período de grande demanda por análise de fibra, o Centro trabalho durante os três turnos diários, somando 24 horas, de segunda a domingo. Sua equipe efetiva é composta, em média, por 14 colaboradores. Mas no período de safra, são contratados cerca de 100 colaboradores temporários, para agilizar o trabalho de análises.

- Todos eles passam por diversas capacitações, para o melhor desempenho em suas funções – informa a Abapa.

Um novo laboratório está sendo construído no Complexo da Bahia Farm Show, também em Luís Eduardo Magalhães, e visa a atender a crescente demanda por análise da pluma de algodão na Bahia e em todos os outros estados do MATOPIBA

- O novo laboratório terá uma área de 4,6 mil metros quadrados, com duas salas que comportam 14 equipamentos de HVI cada, e capacidade de 29,4 mil análises diárias.  A capacidade instalada comporta 28 máquinas, o que mais que dobrará a sua atual capacidade de análise diária, que passará a ser de para 60 mil amostras – informa a Abapa.

 

Sérgio Augusto Brentano, gestor do Centro de Análise de Fibras de Algodão

Entrevistei Sérgio Augusto Brentano, gestor do Centro de Análise de Fibras de Algodão, para entender as características únicas e a qualidade do algodão produzido na Bahia.

O algodão da Bahia se destaca por sua cor e brilho, atributos que o diferenciam em relação a outras regiões produtoras. Segundo Brentano, esse diferencial se deve ao clima peculiar da Bahia, que proporciona maior luminosidade. Essa condição climática favorece a fotossíntese, resultando em uma fibra mais branca e brilhante. Além disso, a maior fotossíntese contribui para o aumento da produtividade, elevando a quantidade de algodão por hectare.

A análise da fibra é de extrema importância para a cadeia produtiva do algodão. Brentano explica que, para produzir qualquer produto, é essencial ter uma matéria-prima de qualidade. A análise permite visualizar a qualidade da fibra, o que é crucial para a indústria têxtil determinar o tipo de fio e tecido que pode ser produzido. Por exemplo, fibras de alta qualidade são utilizadas na produção de fios para camisaria, que demandam um alto valor agregado e qualidade superior. Por outro lado, fibras de qualidade inferior podem ser destinadas à produção de tecidos menos exigentes, como pano de chão.

No que diz respeito à qualidade predominante oferecida pelo Cerrado baiano, Brentano destaca que o algodão produzido na região se sobressai em termos de comprimento, resistência, finura, brilho e cor. Essas características intrínsecas conferem ao algodão baiano uma alta qualidade, com cerca de 90% da produção sendo classificada como de alta qualidade.

A construção de uma nova unidade de análise de fibras de algodão representa um avanço significativo para a produção na região. Brentano afirma que essa nova estrutura é essencial para que os produtores continuem a melhorar a qualidade de suas lavouras. O laboratório oferecerá suporte necessário para atender à demanda de qualidade da fibra, assegurando a continuidade do progresso no setor.

Encerrando a nossa conversa, Sérgio Augusto Brentano, gestor do Centro de Análise de Fibras de Algodão, expressa seu entusiasmo com o futuro da produção de algodão na Bahia, destacando o comprometimento dos produtores com a qualidade e a sustentabilidade, fatores que consolidam a região como uma das principais fornecedoras de algodão de alta qualidade para o mercado nacional e internacional.

Máquinas que rasgam a terra, conservam e constroem estradas
(Foto: Antônio Oliveira)

Máquinas que rasgam a terra, conservam e constroem estradas

Por fim, eis que estamos diante de uma tacada de inteligência, empreendedorismo e visão – digo até visão estadista, sem ser partidário. Uma das obras de conservação e/ou construção de estradas da Abapa, por meio do programa Patrulha Mecanizada, cuja ideia e objetivos do projeto já os descrevemos anteriormente. O trecho, como disse anteriormente é o da BA – 460, de aproximados 60 quilômetros ligando a BR – 020, no oeste da Bahia, ao BR – 242, na divisa da Bahia com o Tocantins. É um dos trechos de rodovias estaduais, federais e municipais de intenso tráfego de caminhões e carretas no transporte de insumos e escoamento da produção. Buracos e depressões no tempo seco e formação de lagoas e atoleiros no período chuvoso.

Criado em 2013, o objetivo era apenas recuperar 7 mil quilômetros de estradas vicinais. A iniciativa de pavimentação de estradas estaduais que cortam todo o perímetro de produção agrícola no Cerrado baiano – terras altas e baixas (vales) – ocorreu a partir de 2018. Atualmente, a Abapa contabiliza maios de 320 quilômetros de estradas pavimentadas.

Um detalhe muito importante, conforme a Abapa: os custo da conservação e construção e pavimentação de estradas pela Abapa e parceiros, é 50% menor que a submetida a burocracia do Estado (licitação) e preços das empreiteiras.

 

 

Obra de pavimentação de rodovia (Foto: Abapa)

 

Estrada concluída que beneficia não apenas os produtores rurais,
mas também toda a sociedade e viajantes de todo o
país que passam pela região (Foto: Abapa)

 

Uma curiosidade: todos os anos, em função da agricultura, mais de 200 mil caminhões percorrem rodovias do Cerrado baiano no trabalho de transporte de insumos, máquinas e implementos agrícolas e escoamento da produção.

Aqui termina a parte três desta série. Amanhã vamos discorrer o mega dia de campo “Dia do Algodão”, que teve mais de 1.300 participantes e que muito acrescentou na história da cotonicultura baiana e, próximo sábado, fecho a série com uma grande e histórica entrevista com o presidente da Abapa, Luíz Carlos Bergamarschi, um dos grandes homens de visão do agronegócio baiano.

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