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ESTUDO ][ Agronegócio lidera iniciativas contra a fome no Brasil, mas pesquisa aponta desafios em foco e estratégia
Data de Publicação: 3 de julho de 2025 15:19:00 Um estudo inédito da Fundação José Luiz Setúbal revela que o agronegócio concentra mais de 52% das ações privadas de combate à insegurança alimentar, mas ainda precisa direcionar investimentos para as regiões mais vulneráveis e focar em toda a cadeia produtiva para maximizar o impacto.
Da redação
O agronegócio brasileiro tem se destacado como o principal setor privado na luta contra a insegurança alimentar no país. Um estudo inédito da Fundação José Luiz Setúbal mostra que o agro respondeu por 52,28% das iniciativas empresariais mapeadas entre 2020 e 2023, superando setores como Alimentos & Bebidas (26,87%) e Comércio Varejista (21,29%).
A pesquisa, intitulada "Investimento e apoio empresariais para garantia da Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil (2020–2023)", analisou 681 ações de 98 grandes empresas em um período complexo, marcado pela pandemia de Covid-19 e pelo desmonte de políticas públicas de combate à fome.
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O estudo mapeou 150 empresas dos setores de Agronegócio,
Alimentos & Bebidas e Comércio Varejista (Foto: Divulgação)
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Liderança numérica, mas com desafios estratégicos
Apesar da liderança em número de ações, o levantamento acende um alerta sobre a efetividade e o foco estratégico dessas iniciativas. As ações do setor privado, incluindo as do agronegócio, estão concentradas geograficamente nas regiões Sudeste e Sul, especialmente em estados onde as empresas têm sede, como São Paulo e Paraná. Isso deixa as regiões Norte e Nordeste, as mais afetadas pela fome, subatendidas.
- O agro está à frente, mas ainda não está onde mais importa. É preciso sair da zona de conforto e investir em territórios de maior vulnerabilidade, com projetos estruturantes e visão de longo prazo - afirma Pedro Luiz dos Santos, pesquisador do Instituto Pensi, da Fundação José Luiz Setúbal.
Gargalos na cadeia alimentar e na estrutura de investimento
Outro achado relevante é que mais de 70% das ações do setor privado estão focadas nas pontas da cadeia alimentar — produção e consumo —, negligenciando etapas intermediárias cruciais como armazenamento, processamento e transporte, onde ocorrem perdas significativas de alimentos no Brasil.
O estudo também revela um baixo grau de institucionalização dos investimentos sociais empresariais: apenas 36 das 98 empresas analisadas possuem fundações ou institutos próprios. A maioria das ações está vinculada a departamentos de marketing ou responsabilidade social corporativa, o que pode limitar a continuidade, escala e foco estratégico.
Um dado preocupante é o desperdício: o Brasil joga fora cerca de 55 milhões de toneladas de alimentos por ano, mas menos de 5% das ações analisadas abordaram a redução de perdas ou o reaproveitamento de alimentos.
- Estamos falando de um país com capacidade de alimentar o mundo — e ainda temos milhões passando fome. O agronegócio tem papel fundamental na correção dessas distorções, mas precisa olhar para a cadeia como um todo e para além da porteira - destaca o pesquisador.
Visão ESG vs. Greenwashing
A pesquisa identificou a presença de ações pontuais e reativas, muitas vezes ligadas a eventos emergenciais. Grande parte das iniciativas não apresenta metas, indicadores de impacto ou relatórios transparentes — apenas 32,67% das empresas divulgaram dados públicos completos nos três anos analisados.
Casos de greenwashing e social washing também foram detectados, como a rotulagem de doações de alimentos ultraprocessados como ações nutricionais, ou iniciativas obrigatórias sendo divulgadas como inovações. Quanto aos beneficiários, as ações priorizaram pessoas em vulnerabilidade econômica (21,7%) e, em menor grau, grupos específicos como mulheres, indígenas e ribeirinhos (18,5%).
Oportunidade de liderança e colaboração
Apesar dos gargalos, os dados apontam caminhos promissores. Cerca de 46% das ações do agronegócio estão alinhadas à meta 2.4 do ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável), focada em práticas agrícolas resilientes e sustentáveis. Outros 42% se relacionam à meta 2.1, que trata do acesso universal e contínuo a alimentos adequados. Entre os mecanismos utilizados, destacam-se doações de alimentos (36,1%) e a adoção de práticas sustentáveis na produção (35,4%).
- O agro já tem capilaridade, logística e relacionamento com o território. O que falta é compreender que suas ações têm impacto estrutural sobre a fome, sobre o meio ambiente e sobre a saúde dos brasileiros. Um bom primeiro passo é incentivar articulações com organizações locais, desconcentrar recursos sociais e não se furtar do debate público, que é e será sempre duro. É hora de sair da lógica emergencial e assistencialista e adotar uma postura de colaboração sistêmica - resume Pietro Rodrigues, coordenador do estudo e pesquisador do Instituto Pensi.
O estudo foi conduzido por pesquisadores do Laboratório de Filantropia, Políticas Públicas e Desenvolvimento do Pensi Social, unidade do Instituto Pensi. Foram analisados relatórios públicos de sustentabilidade, ESG e atividades institucionais de empresas ranqueadas no Valor 1000, com foco nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente o ODS 2 (Fome Zero) e o ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis). Do total de 150 empresas analisadas dos setores de Agronegócio, Alimentos & Bebidas e Comércio Varejista, apenas 98 apresentaram ações relacionadas à segurança alimentar.
Fonte: Fundação José Luíz Setúbal.
Agronegócio, insegurança alimentar, fome, Brasil, Fundação José Luiz Setúbal, Instituto Pensi, ODS 2, sustentabilidade, ESG, filantropia empresarial, desperdício de alimentos, Sudeste, Sul, Norte, Nordeste, cadeia alimentar, greenwashing, social washing.
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