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HISTÓRIA ][ Cerrado Rural: Duas décadas de bandeiras erguidas pelo desenvolvimento integral do MATOPIBA
Data de Publicação: 11 de maio de 2026 15:19:00 Da defesa da Embrapa à atração de investimentos e obras estruturantes: a trajetória combativa de um veículo que não se cala diante dos desafios do agronegócio e da sociedade
Resumo
Neste artigo, Antônio Oliveira celebra 23 anos do Cerrado Rural e os 53 anos da Embrapa, destacando o papel combativo da revista na defesa do MATOPIBA. O texto recorda a luta histórica contra o sucateamento da estatal em 2013 e reafirma o compromisso com o desenvolvimento econômico e social. (Melhor ler com o celular na horizontal)
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Por Antônio Oliveira
Na sua história milenar, intensificando-se com a invenção da imprensa por Gutenberg no século XV, a imprensa sempre empunhou uma bandeira para, assim, ter um objetivo no seio da sociedade. Seja ela política, social, religiosa, filosófica, voltada ao desenvolvimento econômico ou, até mesmo, a bandeira rural. Criado em agosto de 2003, o Cerrado Rural Agronegócios, que nasceu revista impressa e segue como web revista, teve a sua e, nem mesmo enfrentando dificuldades, traições, perseguições, boicotes e até molecagens vindas de agentes públicos, deixou de empunhá-la: as dos agronegócios empresarial e familiar; do meio ambiente; das ciências e tecnologias e, via de regra, do desenvolvimento social. Afinal, pensamos que não existe desenvolvimento social sem desenvolvimento econômico e vice-versa.
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"Sempre preferimos estar no nosso cantinho, fora da política partidária,
mas respeitando-a e colaborando com os agentes políticos" (Foto: Cerrado Rural)
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Nestes 23 anos atuando com foco no desenvolvimento rural da região do MATOPIBA, assumimos — por meio de parcerias com a iniciativa privada e o poder público, principalmente no Tocantins e Cerrado baiano — a base pela qual voltamos nossas atenções para as demais áreas desta pujante região agropecuária. Através de reportagens, artigos ou em diálogos pessoais, provocamos, sugerimos e conquistamos benefícios reais, como a atração de investimentos para o agro e a agroindústria, a legalização do cultivo da tilápia no Tocantins e obras públicas estruturantes. Tudo isso e muito mais jamais com objetivos eleitorais, pois não nasci para a política partidária, pela qual tenho apenas respeito. Tenho visão de estadista e nenhuma para a política partidária. Sempre preferi ficar no meu quadradinho procurando ajudar os que têm responsabilidade com o desenvolvimento social e econômico.
Neste contexto de múltiplas frentes, ao celebrarmos os 53 anos da Embrapa em 26 de abril, lembrei que a empresa é uma das nossas bandeiras fundamentais, pelo seu crescimento, autonomia e pelos avanços que proporciona aos agronegócios – A Embrapa Pesca e Aquicultura, em Palmas, no Tocantins, tem no mínimo um dedinho da Cerrado Rural, idem Ferrovia Leste-Oeste (Fiol). Entre os anos de 2012 e 2013, a empresa pública de pesquisa passava por um processo que nos parecia proposital: um sucateamento visando a sua venda ou, no mínimo, a abertura de capital. O setor do agro, estranhamente, permanecia calado diante das ameaças. Por incrível que pareça, foram duas ONGs de reforma agrária que deram o alerta, acompanhadas por apenas três veículos brasileiros de comunicação — o Cerrado Rural Agronegócios e outros dois nacionais com sede em São Paulo — que empenharam bandeira, bateram forte e acabaram evitando o pior.
A título de comemoração do aniversário desta empresa que é o orgulho do Brasil e uma das nossas valiosas bandeiras, reproduzo a seguir o farto material jornalístico combativo publicado em nossa versão impressa de maio de 2013.
[ É o acaso da Embrapa?
Por incrível que pareça, embora não esteja parecendo para muitos grandes veículos de imprensa de todo o Brasil e pelos senhores congressistas, foram as mulheres dos movimentos Sem Terra e Via Campesina que deram o grito de alerta para a sociedade brasileira sobre o que pode estar por trás da tentativa de abrir o capital da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), segundo o Projeto de Lei do Senado número 8, (PSL – 222 / 2008). Componentes de movimentos sociais ligados à luta pela reforma agrária e por justiça no campo, apoiadas por instituições como o Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento do Agronegócio (Sinpaf), Comissão Pastoral da Terra, CPT, Pastoral da Juventude Rural (PJR), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) E Movimentos dos Atingidos por Barragens (MAB), entre outros, essas 500 mulheres fizeram, no início de fevereiro, ao acampar por 2 ou 3 dias no Centro Nacional de Pesquisa de Arroz e Feijão (Embrapa Arroz e Feijão), em Santo Antônio de Goiás, na região metropolitana de Goiânia, o que o próprio agronegócio mais interessado e beneficiado pela Embrapa não teve coragem ou a sensibilidade de fazer. Por desconhecer a trama ou por comodismo. Dissemos por incrível que pareça lá em cima porque esses movimentos sempre se colocaram de uma forma equivocada e radical em relação ao desenvolvimento de tecnologias agrícolas e ao agronegócio. Mas dessa vez eles acertaram surpreendentemente no alvo. Para embasar esse texto e pôr o leitor a par do que pode estar acontecendo em surdina e também abrir os olhos da sociedade para essa possível trama contra uma das instituições públicas de pesquisas mais respeitada do mundo, Cerrado Rural consultou fontes, aqui reveladas ou não; pesquisou seu acervo literário de agronegócio e ciências agrárias e as centenas de informações disponibilizadas na internet em busca de informações e opiniões sobre o assunto.
Para que o leitor tenha plena consciência dos bastidores dessa trama ao longo dos últimos dois anos, repercutimos, a seguir, algumas opiniões e informações de especialistas e observadores dessa questão.
Para começo de conversa.
Os anos 90 foram marcados por uma onda de fusões e aquisições envolvendo as empresas de sementes, defensivos agrícolas e a indústria farmacêutica. Mas essa grande marola teve início no final dos anos 70, crescendo na década seguinte e se consolidando no final dos anos 90, sob a euforia causada pela “nova biotecnologia” que deu origem aos transgênicos, atingindo também as empresas brasileiras de sementes.
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Embrapa passou por problemas sérios e foi salvo por movimentos
sociais e por alguns veículos da imprensa (Foto: embrapa)
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Foram esses novos grandes grupos multinacionais, formados a partir da reunião de empresas com especialidades diferentes, mas com produtos que podem ser aplicados no mesmo mercado, que realizaram os maiores investimentos em pesquisas e desenvolvimento (P & D) de transgênicos. Os dois movimentos, como se pode constatar nesse clipping de informações escolhidas de fontes físicas e virtuais, aconteceram por motivos diferentes. O primeiro movimento de aquisições aconteceu por três principais motivos: empresas farmacêuticas procuravam diversificar seus negócios; empresas baseadas no comércio de commodities procuravam diversificar suas atividades e usavam a indústria de sementes como fonte de informações para sua atividade principal; e empresas agroquímicas viram possibilidades de crescimento com a biotecnologia. Com isso, surgiram (na área) as primeiras grandes empresas como a Ciba Geygy, a ICI, a Cargill, a Dekalb, a Sandoz, a Rhône Poulenc e a Upjohn.
O segundo movimento ocorreu a partir de 1994 e é mais radical do que o outro movimento e constrói grupos de empresas ainda maiores. É quando se consolidam os oito maiores grupos de empresas na área de sementes. Entre elas estão a Monsanto, que adquire 34 outras empresas na área de sementes; a Aventis, que adquire 18, a Dow Agro Science, que adquire 13, a Syngenta, formada pela União da Novartis, que adquire 18 empresas e a da AstraZeneca, formada pela junção de mais três empresas. Entre essas aquisições estão algumas brasileiras. A Monsanto, que entrou no Brasil com apetite de leão, adquiriu cinco sementeiras brasileiras - entre elas, a Agroceres, até então a maior empresa de capital nacional privado no setor. A DowAgro Science, cinco, e a Aventis, quatro. Vê-se, até aqui, um esquema descomunal para o monopólio do setor de insumos agrícolas no Brasil, sem nenhuma reação do governo brasileiro.
Prossigamos
Para o professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, John Wilckinson, autor do livro “A Transnacionalização da Indústria de Sementes no Brasil, empresas como a Monsanto, Dupont, ICI e CibaGeigy - essas duas incorporadas depois pela Syngenta -, foram empresas que realizaram grandes investimentos em pesquisas e desenvolvimento desde a década de 80. Ainda de acordo com Wilckinson, essas aquisições foram motivadas pelo promissor mercado de novas biotecnologias, com seus altos lucros, o que justifica os altos investimentos em P&D feitos por essas empresas em busca do mercado internacional de insumos agrícolas.
Cada variedade de semente é desenvolvida para as condições de clima e solo locais. Não se exporta ou importa uma variedade de uma condição edafoclimática para outra e havia também a insuficiência dos sistemas de patentes no sentido de garantir os benefícios às empresas. Esses fatores fizeram com que às empresas buscassem a cooperação com produtores de sementes locais. “As inovações vegetais não podem ser transferidas de seu país de origem para o resto do mundo sem modificações e adaptações subsequentes”, aponta Wilckinson.
O modo como essas empresas entraram no Brasil, revelam os observadores desse mercado, baseiam-se em uma estratégia de mercado no sentido de participar dos setores da indústria de sementes com produtos de maior valor agregado. Os três principais setores dessa indústria são o setor de híbridos (milho); o mercado de variedades (soja, arroz e trigo) e o mercado de hortaliças, o menor dos três.
Cada vez mais, essas megas empresas desenvolvem produtos de alta rotatividade para elas e limitados para os produtores. Entendam: apenas a primeira geração das sementes híbridas, no caso do milho, é adequada para o plantio.
Os grãos oriundos dela perdem todas as suas características originais. Ou seja, não há como o produtor fazer sua própria reserva de sementes. A cada plantio, nova aquisição de sementes. Dos mercados de sementes, esse é o mais lucrativo e nas mãos de poucos, em sua maior parte sob o controle da Monsanto.
O interesse dessas empresas não está apenas na participação do mercado, mas também no controle de conhecimento que as empresas nacionais detinham. A Aventis, por exemplo, passou a deter o maior banco de germoplasma do milho tropical do Brasil ao adquirir as empresas de sementes Mitla, Fartura e Ribeiral e dessa forma introduziu no Brasil a variação transgênica do milho Liberty Link.
Os planos para controle do mercado de sementes e defensivos agrícolas no Brasil não param por aqui. Essas multinacionais também procuraram se associar a institutos de pesquisas nacionais. Foi o que fez a Monsanto com a Embrapa. Por meio desse acordo, a Embrapa desenvolveu pesquisas no intuito de criar variedades transgênicas de soja resistentes ao herbicida glifosato, um produto genérico que também é vendido pela Monsanto com o nome de Roundup.
Então, o agricultor que plantar essa ou qualquer outra tecnologia desenvolvida por determinada empresa como o Roundup Ready terá que pagar royaties à empresa americana. Já no contrato realizado entre Monsanto e Embrapa, ficou acordado que essas cultivares pertencem a Embrapa.
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Facsimile da capa de Cerrado
Rural de maio de 2013
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Dados de diversas consultorias revelam que até 2006 a semente de soja ocupava 55% do mercado brasileiro de sementes. Desse percentual, a Embrapa abocanhava mais, ao menos, 44%. Outras instituições públicas de pesquisas e vendas de sementes, 4%. As multinacionais Syngenta, 3%; a Dupont, 4%; a Monsanto, 21% e demais sementeiras brasileiras, 24%. Ou seja, empresas privadas nacionais e multinacionais detinham 52% do mercado, quase 10% a mais que as empresas públicas.
Essa participação da Embrapa já foi maior, 70% até 1997. Já a Monsanto, que até aquele ano detinha 12% do mercado, cresceu para 18% em 1999, após adquirir a brasileira FT-Pesquisas e Sementes, “mordendo”, na safra de 2007/2008, 21%. Se basearmos por um crescimento anual de 6%, ela chegou a mais de 50% na safra 2011/2012. É claro que teve uma “mãozinha” muito grande da estatal Embrapa por meio do contrato de parceria com a brasileira, orgulho dos setores de ciências agrárias brasileiras. A Embrapa detém, hoje, de acordo com a Consultoria Céleres, 10% do mercado de sementes de soja.
O compressor das multinacionais
É nesse contexto que podemos ver que a luta de segmentos equilibrados dos Sem Terra, da Via Campesina, entre outros movimentos sociais pela reforma agrária, tinha e tem sua boa cota de razão no que diz respeito à atuação da Embrapa e a entrada discriminada das multinacionais de agroquímicos e sementes no Brasil. Há poucos anos, o trabalhador rural da Costa Rica, Wilson Campos, membro da via Campesina, organização mundial que envolve trabalhadores rurais, alertava que a Monsanto tinha criado um telefone especial para que os trabalhadores possam denunciar plantações piratas. Segundo ele, as empresas estariam criando uma cultura de delação entre os agricultores.
Esses alertas e reclamações não são só de pequenos produtores, geralmente ligados à esquerda política no Brasil. Nem a Cerrado Rural está defendendo interesse dessas facções, nem da direita, nem dos grandes produtores; muito menos, esta revista é contra a atuação das empresas estrangeiras em qualquer tipo de mercado. Mas sem esse “canibalismo” e quase oligopólio. Tenta-se, aqui, no nosso papel de formador de opinião e de defesa do agronegócio brasileiro sem um mínimo de xenofobia, lançar luz para um problema que pode se constituir, muito breve, num grande gargalo para o agronegócio brasileiro.
Mas os grandes produtores também chegaram a protestar, antevendo uma situação de monopólio do setor de sementes e insumos. Pois bem, em 1999, tendo à frente o até então maior plantador de soja do mundo, o hoje senador Blairo Maggi, de Mato Grosso, estado que é o terceiro maior produtor desse grão no Brasil, com mais de 2,8 milhões de hectares de área plantada, sojicultores mato-grossenses promoveram um movimento de resistência à entrada no Brasil de sementes transgênicas. Eles acusaram as multinacionais, como Monsanto e Novartis de quererem monopolizar o mercado. E é o que está acontecendo, porém o agronegócio como um todo se calou: o rolo compressor das multinacionais foi mais forte. Na época, a Monsanto admitiu abertamente que quer mais do mercado brasileiro. “Estamos numa democracia, o agricultor escolhe de quem vai comprar as sementes”, disse Rodrigues Lopes Almeida, então diretor de assuntos corporativos da multinacional americana.
Espera-se que, se não o governo, ao menos a sociedade civil organizada, principalmente em associações de classe de pequenos e grandes produtores reduza a força dessa pressão. O pequeno e o grande agronegócio brasileiros não podem ficar refém do poderio econômico estratégico de quem quer que seja: grupos nacionais ou internacionais.
Em nota, atendendo solicitação da nossa redação, a Monsanto limitou-se apenas, por meio de sua assessoria, a emitir, via e-mail, a seguinte nota:
“Infelizmente, não poderemos auxiliar no andamento da reportagem. Esperamos ajudá-lo em futuras solicitações. Obrigado!”
“Competitividade exige eficiência da Embrapa”
Talvez as razões para a abertura do capital da Embrapa estejam na visão de sementeiros brasileiros, representados por sua associação de classe. Eles não são contra. Em entrevista a Cerrado Rural, o presidente da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), Nasciso Barison Neto, diz ver com bons olhos a abertura do capital social da Embrapa. Para ele, a iniciativa é muito positiva para as crescentes necessidades de investimentos em pesquisa que se fazem necessárias para se manter o Brasil competitivo. Afinal de contas, diz ele, a primeira vocação do nosso país é a agricultura. Ainda de acordo com ele, manter o foco na Embrapa somente em uma agenda social é um risco “pois a tendência é diminuir as suas atividades, tendo em vista que os recursos para custeio e investimento seriam provenientes do Estado. Ou seja, são poucos e nem sempre chegam a tempo e a hora”.
Sobre o papel da Embrapa junto aos setores produtivos rurais e às instituições privadas de pesquisas como as fundações estaduais, Barison Neto diz acreditar que, apesar das limitações da estatal, ela tem feito o possível para atender as demandas da agricultura. Porém, diz, a crescente competitividade do setor, no Brasil e no mundo, exige mais eficiência e foco por parte da Embrapa. “Temos novos desafios e a Embrapa tem sido solicitada cada vez mais. Pela sua importância estratégica, achamos que ela ainda pode desempenhar um papel estratégico para o desenvolvimento do setor de sementes, por exemplo, que é o nosso caso”, frisa o sementeiro.
A exemplo das fundações privadas de pesquisas nos estados, Barison Neto também se queixa do modelo de parcerias que há entre a Embrapa e essas instituições. Conforme ele, esse modelo, que já dura dez anos, necessita de uma atualização urgente “e isso não está ocorrendo”. Ele lembra que o setor de sementes no Brasil está mudando muito rapidamente, em razão da chegada de novas tecnologias, novas empresas de sementes, o que torna a competição mais acirrada. “O agricultor está mas exigente, com razão, pois necessita competir com agricultores de outros países, que dispõem de tecnologias de última geração”. Dessa forma, continua o presidente da Abrasem, a Embrapa tem um papel importante nesse cenário, que é ser uma opção ao produtor de sementes brasileiro às grandes empresas transnacionais, que têm um grande poder de investimentos e, por consequência, de geração de novas tecnologias. “Necessitamos trabalhar juntos, Embrapa e setor privado, focados e buscando, sempre, mais eficiência. Mas este tem que ser o interesse de ambas as partes. O setor de sementes, por meio da Abrasem e suas associadas, tem esse interesse”, pontua.
Embrapa e as multinacionais de pesquisas e sementes. Uma tem conseguido acompanhar a evolução das outras? Barison Neto diz acreditar que a estatal tem suas dificuldades, principalmente por ser uma empresa pública. Entretanto, diz ele, tem um patrimônio enorme, que é o seu quadro técnico. “Acreditamos que revendo seu modelo de parcerias, poderia a voltar a ser uma importante alternativa para os produtores de sementes brasileiros”, aponta.
Algumas variedades de soja criadas pela Embrapa já estão ultrapassadas pelas variedades desenvolvidas pelas pesquisas privadas. Inclusive, há uma contradição nisso: soja ciclo longo x safrinha. Esta questão é vista elo presidente da Abrasem sob o seguinte prisma: conforme ele, o que acontece é que as empresas privadas trabalham com mais foco em resultados de curto prazo, têm mais agilidade para estar próximo do agricultor, para identificar suas necessidades atuais. “O mercado busca soluções rápidas e a Embrapa tem uma visão mais estratégica e de longo prazo. Ou seja, enquanto o mercado busca sementes que atendam as necessidades por resultados imediatos, as de ciclo precoce, por exemplo, a Embrapa vinha trabalhando com sementes de ciclo mais longo, com uma visão mais estratégica de produção”, explica.
Concluindo sobre a proposta de abertura do capital da Embrapa para a iniciativa privada, o líder dos sementeiros brasileiros disse acreditar que pode ser uma opção interessante para que a Embrapa tenha recursos para ser mais ágil, eficiente e, em consequência, voltar a ser competitiva. Ele diz ainda não ter como dizer qual seria o modelo ideal de uma nova Embrapa. “Poderia ser simples transformação em uma empresa de economia mista. Temos exemplos de sucesso e eficiência como o Banco do Brasil, Petrobras etc., ou se buscar criar uma subsidiária com essas características. Mas o fato é que o país necessita de uma Embrapa com atuação destacada, ocupando um espaço significativo no nosso mercado, pois isso é estratégico para um país cuja vocação primeira é agrícola, como o nosso”, finaliza o presidente da Abrasem, Barizon Neto.
A Fundação Bahia, com sede a origem no oeste desse Estado, também foi uma parceira da Embrapa e, embora tenha rompido a parceria que existiu entre as duas entidades, seu atual presidente, Clovis Ceolin, preferiu emitir a seguinte nota para a Cerrado Rural Agronegócios, quase no mesmo raciocínio amenizador da Abrasem.
Eis a nota:
“O presidente da Fundação Bahia, Sr. Clovis Ceolin, diz que a Embrapa tem executado um grande número de projetos de pesquisa agropecuária de onde resultaram novas tecnologias, objetivando aumentar a produtividade e melhorar a qualidade de diversas culturas no país.
A Fundação Bahia aposta em parcerias a exemplo da Embrapa para a melhoria da produtividade e da qualidade nas lavouras do Cerrado baiano, e isso tem se consolidado a cada dia. Houve um significativo aumento na eficiência e, graças também a essa parceria, é que os programas de melhoramento genético foram ampliados, dinamizados e refinados, permitindo a recomendação mais segura de um maior número e de melhores cultivares a cada ano. Com isso, estamos apresentando mais três novas cultivares de soja da parceria Fundação Bahia e Embrapa, que são BRS 880, BRS 8381 e BRS 980RR, e três que foram plantados por nossos sementeiros que já estão no mercado e são altamente produtivas, BRS 313 (TIETA), BRS 314 (GABRIELA) e BRS 315RR (LÍVIA).
Esse trabalho em conjunto entre as instituições de pesquisa e desenvolvimento é fundamental para garantir o acesso do produtor às novas tecnologias. TER a Embrapa, como parceira da Fundação Bahia, é somar forças e contribuir para o desenvolvimento do nosso país e do mundo”.
Entrevista
“Nosso leque é amplo”
Presidente da Estatal, Maurício Lopes, nega decadência da empresa e diz que a abertura de capital é assunto que ficou no passado, arquivado pelo Senado.
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Entâo presidente da Embrapa, Maurício Lopes (Foto: Embrapa)
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Assim como o ex-presidente da Estatal, Pedro Arraes (que recebeu Cerrado Rural, antes de deixar o cargo, na sede da empresa em Brasília, para falar sobre este tema), se manifestou em resposta a nossa reportagem por ocasião do alerta do movimento campesino, o atual presidente, Maurício Antônio Lopes, nega que a Embrapa esteja em processo de decadência. Reafirma as parcerias e lembra que o Projeto de Lei que visava a abertura do capital da Embrapa foi arquivado pelo Senado. “Ele está sendo substituído por um projeto de lei que cria uma subsidiária da empresa (para dar mais agilidade às questões de inovação)”. Maurício Antônio Lopes respondeu aos questionamentos da Cerrado Rural Agronegócios por meio de e-mail.
Cerrado Rural Agronegócios (CRA) - A parceria entre a Embrapa e a Monsanto tem sido muito questionada pelo setor rural brasileiro. Como o lançamento da Aliança Para a Inovação Agropecuária. Trata-se de uma iniciativa da empresa e do Consepa (Conselho Nacional de Sistemas Estaduais de Pesquisa Agropecuária), que visa revitalizar o Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária. A Aliança reunirá 18 instituições estaduais e contará com o apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e o Ministério de Minas e Tecnologia (MCTI).
Maurício Antônio Lopes- A Aliança é uma nova plataforma de pesquisa com estratégias compartilhadas que vai possibilitar a constituição de novos portfólios e arranjos de PD & I, além de permitir a Embrapa e as Organizações Estaduais de Pesquisas (OEPAS), à utilização compartilhada de infraestrutura, laboratórios multiusuários de campos experimentais avançados.
CRA - Produtores reclamam também que a Embrapa incentiva muito a cultura de safrinhas (sobretudo de milho), porém isso só é possível com o cultivo de soja de período curto, desenvolvido pelas grandes multinacionais e que custa muito caro, o que seria uma “jogada” da Embrapa para beneficiar essas grandes empresas. O que o senhor tem a dizer disto?
Maurício Antônio Lopes - Essa assertiva é totalmente infundada, uma prova disso é que o programa de melhoramento da soja da Embrapa optou por selecionar materiais de ciclo médio e longo em função da maior estabilidade e produtividade. Mais recentemente, com a ampliação dos sistemas de milho safrinha, a Empresa realinhou seu programa de melhoramento justamente para oferecer outras opções aos produtores e recentemente lançou cultivares de ciclo curto que viabilizaram o seu uso na safrinha. O papel da Embrapa sempre foi promover conhecimento e soluções tecnológicas para a composição dos sistemas produtivos e continuará desenvolvendo diferentes cultivares que atendam a real demanda dos produtores.
C.R.A. - Ao longo dos útlimos 20 anos, grandes empresas multinacionais têm adquirido pequenas, médias e grandes empresas de pesquisas e sementeiras até culminar na parceria da Embrapa com a Monsanto, de certa forma, além de enfraquecer a livre concorrência, reduziu o mercado sementeiro da Embrapa. O que tem a dizer?
Maurício Antônio Lopes - A crescente participação dessas empresas no mercado de sementes não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Ele ocorreu em todos os países onde a agricultura atingiu um elevado nível de competitividade. Trata-se de uma nova realidade com a qual a Embrapa e outras empresas devem trabalhar. A parceria com as multinacionais representa uma das frentes de atuação da Embrapa. Nós continuamos trabalhando para garantir uma participação estratégica nos mercados de sementes de commodities que não será o mesmo do passado, pois a realidade é diferente. A Embrapa continua atuando fortemente em parceria com empresas nacionais que são importantíssimas para levar as inovações aos produtores e também continuamos com vigorosos programas em outras áreas, onde a pesquisa pública ainda tem um papel fundamental.
C.R.A. - Um projeto de lei, o PLS 222/2008, visa a abertura de capital da Embrapa. Há quem veja nisso o início da privatização da empresa federal de pesquisas agropecuárias. O ex-presidente Pedro Arraes negou que o governo federal e a própria Embrapa tenha interesse nisso. Contudo, quem apresentou e quem relatou o projeto são ligados ao PT e, mais precisamente, ao então presidente Lula, período no qual o projeto foi apresentado. Qual a sua opinião sobre essas possibilidades (abertura de capital e privatização)?
Maurício Antônio Lopes - Esse projeto, a suposta abertura de capital e privatização da Embrapa, são questões sepultadas. O Senado abandonou o PLS 222/2008 e está trabalhando com um substitutivo que cria uma subsidiária da empresa para dar mais agilidade às questões de inovação. Trata-se de uma medida importante para fazer com que os resultados da pesquisa se transformem mais rapidamente em produtos para a sociedade e beneficia inclusive os pequenos e as médias empresas nacionais.
A realidade seria outra?
Mas a realidade mostra outra coisa: Levada pelos preconceitos e medo de ferir a esquerda, principalmente no momento em que ela está no poder, a Embrapa não avançou com as novas tendências tecnológicas mundiais, como o advento dos transgênicos, o que abriu espaço para megas multinacionais, a exemplo da Syngenta, Monsanto e Bayer CropScience. De 2005 para cá, a CTNBio, (Comissão Técnica Nacional de Biotecnologia), liberou 32 variedades de transgênicos. Apenas duas cultivares são da Embrapa.
Não só isso, enquanto as gigantes do setor de sementes investem algo em torno de R$ 2 bilhões de reais por ano para a pesquisa, a Embrapa conta apenas com R$ 200 milhões.
Qualquer iniciativa que venha a salvar a Embrapa do ostracismo, em que está caindo - orçamento maior, privatização ou simplesmente abertura de seu capital -, o agronegócio e a sociedade científica brasileira vão ficar devendo isso aos movimentos sociais ligados à terra.
(Antônio Oliveira) ]
Cerrado Rural, MATOPIBA, Desenvolvimento Econômico, Embrapa, Infraestrutura, Agronegócio, Tocantins.
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