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ESPECIAL / HISTÓRIA ][ O algodão pioneiro, uma jornada histórica em Barreiras

ESPECIAL / HISTÓRIA ][ O algodão pioneiro, uma jornada histórica em Barreiras

Data de Publicação: 23 de julho de 2025 15:37:00 Neste ensaio, um olhar sobre a resiliência agrícola de Barreiras, desde o látex até o renascimento do algodão, moldando a identidade econômica da região. Um relato à luz da narrativa da historiadora Ignês Pitta.

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Uma das algodoeiras pioneiras em Barreiras
e seus empreendores (Foto: Acervo de Ignês Pitta)

Por Antônio Oliveira 

A vocação de Barreiras para o agronegócio e a agroindústria é uma constante em sua história, enraizada desde o século XIX. De um pequeno povoado à potência agrícola atual, a região sempre se destacou pela exploração de recursos naturais e pelo empreendedorismo local. Inicialmente, o látex das mangabeiras e a pecuária de corte impulsionavam a economia, com um frigorífico avançado para a década de 1940, que escoava carne para outros estados, especialmente o Rio de Janeiro, um feito atribuído à visão do Dr. Geraldo Rocha, uma das figuras humanas mais inteligentes que a Bahia deu para o Brasil.

O algodão, que hoje posiciona a Bahia como o segundo maior produtor nacional, também possui raízes profundas na região. Antes do boom da década de 1990, Barreiras já produzia a fibra a partir de espécies arbóreas (árvore de porte mediano), processada em algodoeiras locais e vendida para tecelagens fora do estado.

Outro cenário dos tempos pioneiros do algodão
no oeste da Bahia (Foto: Acervo de Ignês Pitta)

A historiadora Ignês Pitta, uma das maiores conhecedoras da história de Barreiras, oferece uma narrativa detalhada sobre essa trajetória. O que eu escrevo a seguir tem como base de pesquisa um texto seu publicado na sua página no Facebook.

Segundo ela, o algodão era nativo da região e cultivado desde os primórdios da civilização. Ignês recorda a existência de duas espécies: o algodão arbóreo (perene) e o algodão herbáceo (anual). Em tempos sem pragas, os produtores escolhiam a espécie, e era comum encontrar pés de algodão arbóreo nos quintais para suprir necessidades domésticas, como o descaroçamento manual da fibra.

Nas fazendas, teares primitivos de madeira eram utilizados para produzir tecidos rústicos, ideais para roupas de trabalho, redes, cobertores e toalhas. A popularização de tecidos manufaturados mais baratos, vendidos em feiras, gradualmente encerrou essa produção artesanal.

   A processadora de algodão do Cel. Antônio
    Balbino (Foto: Acervo de Ignês Pitta)
 
Prédio ainda existente de uma das algodoeiras
de Barreiras (Foto: Acervo de Ignês Pitta)

 
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A primeira indústria de descaroçamento de algodão em Barreiras, anterior à hidrelétrica, foi instalada na Fazenda Limoeiro, do Sr. Severiano Ângelo da Silva. Localizada às margens do Rio Grande, essa algodoeira era movida pela força da água, captada por um canal construído a partir do rio. A tradição oral é a única fonte que preserva a memória dessa iniciativa pioneira, que, com equipamentos trazidos de São Paulo, permitiu uma produção significativamente maior do que o descaroçamento manual. A importância da Fazenda Limoeiro é atestada por sua presença em mapas antigos, sendo a única propriedade rural a figurar neles.

Em 1918, o Cel. Antônio Balbino de Carvalho (pai do ex-governador da Bahia e ex-ministro de Getúlio Vargas) publicou na revista Renascença, em Salvador, a inauguração de um gerador de eletricidade que impulsionaria máquinas de descaroçar algodão e arroz. Fotos da época mostram a eficiência da máquina e a importância do evento para a história local.

Ignês segue contando que o escoamento do algodão beneficiado era feito por navios a vapor, que navegavam pelo Rio Grande até a Barra, desaguando no São Francisco, e seguindo até Pirapora, em Minas Gerais. De lá, uma estrada de ferro levava a Belo Horizonte, centro de fábricas de tecidos. Essa rota fluvial e ferroviária permitiu que o algodão de Barreiras alcançasse os mercados consumidores, impulsionando a produção na região oeste. Diante do aumento da demanda, o Cel. Antônio Balbino (pai do ex-governador da Bahia e ex-ministro do Governo Getúlio Vargas) construiu um segundo galpão na Rua Silva Jardim, exclusivo para o descaroçamento de algodão, enquanto o arroz permaneceu no primeiro estabelecimento. Ambas as construções ainda existem em Barreiras.

A presença de energia elétrica também impulsionou o Cel. Baylon Boaventura a estabelecer uma beneficiadora de algodão, produção de fios e uma fábrica de tecidos na esquina da Rua Barão de Cotegipe com a Rua 24 de Outubro. Segundo seu filho e ex-sócio, Janô Boaventura, a produção de fios excedia a capacidade da fábrica de tecidos, e o excedente era exportado para a Argentina. A fábrica contava com cinquenta teares, cada um operado por uma funcionária.

A beneficiadora do Sr. Baylon, inicialmente na Rua Floriano Peixoto, foi vendida à Braga & Cia no final da década de 1950, que continuou a produção e exportação do algodão local. Com a paralisação das beneficiadoras, o galpão foi vendido e atualmente abriga uma loja de móveis (próximo a ponte de cimento da BR e início das vias de acesso à cidade de São Desidério).

Porto por onde saía a produção algodoeira, hoje, urbanizado, 
no Centro Histórico de Barreiras (Foto: Acervo de Ignês Pitta)

Outra grande beneficiadora de algodão, pertencente ao Sr. Mariano Gonçalves, também operava na época, com uma máquina compressora para extrair água da borracha de mangabeira, produzida até por volta de 1960. O imóvel dessa beneficiadora foi demolido na década de 1970 para a construção de um supermercado da rede Pinguim, e hoje está alugado para o Sacola Cheia do Cais.

O Sr. Georgetown Alencar, conhecido como Suruna, também implantou uma beneficiadora de algodão em Barreirinhas, na praça Dr. Orlando de Carvalho.

No final da década de 1960, todas as beneficiadoras paralisaram suas atividades devido à escassez de energia elétrica. A construção da hidrelétrica de Sobradinho, no Rio São Francisco, antes de Juazeiro-BA, solucionaria o problema energético. No entanto, o fechamento da represa criou o que seria o maior lago artificial do mundo na época, tornando a navegação de navios a vapor e barcas a diesel inviável devido à profundidade das águas. A interrupção da rota fluvial para Pirapora, sem uma alternativa de transporte, marcou o fim do primeiro ciclo da produção algodoeira no oeste baiano.

Século XXI: O oeste da Bahia conta com várias processadoras
de algodão, além do maior laboratório de análise
da fibra da Amáerica Lativa (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rurl Agro)

Depois desta fase em Barreiras,, observa este editor, a produção de algodão teve sequência na região de Guanambi em produção significativa, mas em década recente, dizimada pela praga do bicudo-do-algodoeiro.

Posteriormente, a conquista do Cerrado para a agricultura iniciou um novo ciclo, que elevou a Bahia ao segundo lugar na produção nacional de algodão, inclusive para exportação, demonstrando a resiliência e a capacidade de adaptação da região. (Eu conto esta história recente em livro, veja banner abaixo)

E a região de Guanambi voltou à produção da fibra graças ao apoio dos cotonicultores do oeste da Bahia por meio da associação da classe, a Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa)

 

 

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