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ENTREVISTA ][ Danielle de Bem Luiz: Ciência, articulação e o legado de um Centro de Pesquisa mais forte

ENTREVISTA ][ Danielle de Bem Luiz: Ciência, articulação e o legado de um Centro de Pesquisa mais forte

Data de Publicação: 6 de dezembro de 2025 13:01:00 No próximo dia 31, ao encerrar sua gestão de cinco anos, Danielle de Bem Luiz entrega a Embrapa Pesca e Aquicultura consolidada, com foco em edição genômica, infraestrutura robusta e visão de bioeconomia azul

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Por Antônio Oliveira

Em uma entrevista de balanço detalhada, Danielle de Bem Luiz, gestora de saída da Embrapa Pesca e Aquicultura, traça um panorama do legado deixado para o seu sucessor, Roberto Flores. Ela detalha como a unidade se consolidou como referência nacional e internacional, superando a contínua limitação orçamentária através de articulação e obstinação. A gestora destaca o avanço em infraestrutura — como o biotério com selo de biosseguridade para edição genômica de peixes tropicais — e a clareza estratégica para o futuro, que passa pela internacionalização da pesquisa, a simplificação dos marcos regulatórios da aquicultura e a ampliação do foco em bioeconomia azul e espécies amazônicas.

Segue a íntegra da entrevista

Cerrado Rural Agronegócios - Quais foram os principais marcos e resultados mais significativos alcançados pela Embrapa Pesca e Aquicultura durante os últimos cinco anos?

Danielle de Bem Luíz em seu gabine de trabalho na Embrapa
Pesca e Aquicultura, em Palmas (Foto: Jefferson Christofoletti)
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Danielle de Bem Luiz – Acredito que a Embrapa Pesca e Aquicultura consolidou sua posição como referência nacional e internacional em pesquisa, inovação e inteligência estratégica, especialmente no setor aquícola. Esse fortalecimento ocorreu em paralelo à intensificação de nossas ações em aquicultura e agropecuária, com um foco particular no contexto do Tocantins. Um marco fundamental foi a abertura do nosso Campo Experimental de Sistemas Agrícolas, que nos permitiu concentrar todas as pesquisas de curta e longa duração em um único espaço. Isso potencializou inovações e aumentou o impacto na produtividade, inclusive no enfrentamento das dificuldades impostas pelos Plintossolos Pétricos no estado. No campo dos resultados, tivemos pela primeira vez a elaboração e execução de projetos que integram aquicultura e agricultura, unindo efetivamente os dois núcleos de pesquisa. Além disso, realizamos uma expansão e qualificação da nossa infraestrutura laboratorial e de campos experimentais, incluindo a inauguração do Campo Experimental de Sistemas Agrícolas e o aprimoramento do biotério de peixes com o selo de biosseguridade 1 da CTNBio, essencial para o trabalho com edição genômica de peixes tropicais. Fortalecemos, ainda, nossas redes estratégicas com a criação da REAQUA e a evolução da antiga Rede Kappa Brasil para a atual Rede Algecultura BR. Alcançamos notável protagonismo técnico-científico em temas cruciais como o melhoramento genético de tambaqui, a reprodução do pirarucu, a inteligência territorial para zoneamento de áreas aquícolas e a edição genômica de peixes tropicais. Finalmente, ampliamos significativamente nossa presença institucional e fortalecemos nossas parcerias com governos e atores do setor produtivo.

Cerrado Rural Agronegócios – Quais foram os maiores obstáculos enfrentados por sua gestão e como eles foram abordados e superados?

Danielle de Bem Luíz - Acredito que o maior desafio da gestão foi, de fato, a contínua limitação orçamentária de recursos, tanto para a manutenção de nossa infraestrutura quanto para a execução das pesquisas. Isso exigiu um rigor muito maior na priorização das nossas necessidades, uma elevadíssima eficiência operacional e uma forte articulação para que pudéssemos captar recursos de outras fontes, sejam elas governamentais ou de parceiros privados. Enfrentamos também desafios na gestão de pessoas e na adequação das nossas capacidades internas para atender às novas agendas tecnológicas. Somos uma equipe enxuta, e a todo momento chega uma demanda do setor...

Cerrado Rural Agro - ... E aí eu faço um adendo: eu acompanhei todo esse processo, sua coragem e obstinação de pegar uma pasta e ir abrir portas nos governos, nos parlamentos...

Danielle de Bem Luiz – ... Ah, obrigada! E realmente foram muitas pastas, foram aniversários de filhos perdidos... Meu próprio aniversário, nestes cinco anos, creio que em apenas dois eu consegui passar em casa. É algo a que nos dedicamos, não por um propósito individual, mas por um propósito coletivo e corporativo.

Cerrado Rural - Qual a principal lição que a experiência de gestão proporcionou?

Danielle de Bem Luiz – Essa é uma situação complexa. Embora cada gestor tenha a sua própria perspectiva, acredito que a liderança pública exige, como o senhor bem disse, uma forte articulação e uma escuta ativa de todos os lados. É fundamental promover uma ampla mobilização de equipes, pois a captação de recursos e a articulação externa não são suficientes se a equipe interna não estiver igualmente alinhada e motivada.

Adicionalmente, uma visão estratégica é indispensável. Resultados consistentes exigem uma governança forte e um cuidado genuíno com as pessoas. Destaco, também, a importância de um pensamento holístico, que conjugue sabedoria, paciência e a agilidade necessária para reconhecer com lucidez as oportunidades e, quando preciso, alterar a rota. Dessa forma, mantemos um planejamento continuamente vivo, estratégico e perfeitamente alinhado ao propósito corporativo.

Cerrado Rural - Com base nos avanços e desafios encontrados, quais são as principais metas e perspectivas estratégicas da Embrapa Pesca e Aquicultura para os próximos anos?

Danielle de Bem Luiz – Acredito que as prioridades estratégicas se concentram na sustentabilidade e intensificação produtiva dos sistemas agropecuários no Tocantins, com ênfase em grãos e pecuária em sistemas integrados de produção, como ILPF e ILP. O estado também tem grande potencial para produção de pulses, fibras e gergelim.

Uma grande tendência que devemos priorizar é a transformação digital na aquicultura, conforme demonstrado pelo recente destaque sobre o uso de inteligência artificial na reprodução do pirarucu.

Outro ponto importante é a necessidade de agregar mais valor ao pescado. Isso não é uma tarefa exclusiva da Embrapa Pesca e Aquicultura, mas envolve a colaboração com outras unidades da Embrapa que trabalham com processamento de alimentos, como a Embrapa Agroindústria de Alimentos e a Embrapa Agroindústria Tropical. É fundamental ampliar nosso leque de produtos para aumentar a competitividade da cadeia.

Adicionalmente, devemos focar na geração de dados robustos de inteligência territorial, mercado e sistemas de produção sustentáveis para subsidiar a elaboração de políticas públicas eficazes.

Por fim, agora que estamos mais consolidados e realizando pesquisa de ponta, o próximo passo é internacionalizar nosso trabalho. Temos uma infraestrutura robusta, que nos permite expandir as parcerias internacionais, receber pesquisadores estrangeiros em intercâmbios ou enviar nossos colaboradores para especializações (como pós-doutorados no exterior), garantindo a contínua incorporação de conhecimento avançado para a agricultura nacional.

 

"Acredito entregar uma unidade mais forte, mais articulada e amplamente reconhecida, estabelecida sobre bases sólidas."

  

Cerrado Rural Agro - Quais áreas da unidade receberão maior atenção e investimento nos próximos anos?

Danielle de Bem Luiz – Concentrando-me agora na aquicultura, que é o foco principal desta entrevista, destaco as seguintes prioridades:

Primeiramente, são essenciais a manutenção e o aprimoramento contínuo da nossa infraestrutura para garantir o avanço do melhoramento genético e genômico.

Em segundo lugar, é necessário investir em sistemas de produção aquícola sustentável, abrangendo desde viveiros escavados até tanques-rede e tanques elevados. Isso deve ser acompanhado de um monitoramento ambiental constante, pois a preservação dos nossos insumos naturais é a nossa maior riqueza. Quando cito sistema de produção, quero dizer todo o conjunto de soluções de nutrição e alimentação, sanidade, reprodução, genética, manejo, mercado e inteligência territorial.

Outro ponto estratégico é o processamento do pescado de forma mais eficiente e voltada para o interesse do consumidor. A tendência é a praticidade: produtos prontos que simplificam o preparo doméstico, como a opção de ir diretamente para a airfryer.

Também precisamos direcionar nossos esforços para as macroalgas tropicais, olhando para o potencial da bioeconomia azul.

Por fim, devemos dar atenção especial à aquicultura nativa, em particular a amazônica, que é extremamente rica. É imperativo consolidar nossas espécies amazônicas não apenas no mercado interno, mas também no mercado internacional.

Cerrado Rural Agro – Na sua opinião, qual o cenário atual de crescimento e desenvolvimento dos setores de pesca e aquicultura no país?

Danielle de Bem Luiz – A aquicultura se encontra em um estado de expansão contínua. Esse crescimento é um reflexo direto da crescente profissionalização do setor, impulsionada principalmente pelos avanços em genética, nutrição e biosseguridade.

Já a pesca, em especial a pesca artesanal, está em um momento de reorganização. Este cenário abre portas para a geração de dados e a captação de novas demandas de inovação, o que implica diretamente na geração, desenvolvimento e transferência de tecnologia. Além disso, é fundamental a produção de dados para subsidiar a elaboração de políticas públicas mais assertivas.

Cerrado Rural Agronegócios - Quais são os obstáculos estruturais ou técnicos que ainda limitam o pleno desenvolvimento e a expansão sustentável destes dois setores no Brasil?

Danielle de Bem Luíz comanda a Embrapa Pesca
e Aquicultura aé 30 deste mês (Foto: Jefferson Christofoletti)
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Danielle de Bem Luiz – Acredito que precisamos abordar a aquicultura de uma forma mais organizada e estruturada. É imperativo analisar os avanços e os desafios enfrentados por outras cadeias de proteína animal ao longo dos últimos 50 ou 70 anos. Devemos aprender como elas conseguiram consolidar mercado, construir marcas, garantir acesso a ministérios e, consequentemente, obter apoio para a elaboração de políticas públicas mais assertivas.

Essa organização setorial, mais unificada e uníssona entre os grandes líderes, é essencial. Com uma ação conjunta e coordenada, será possível:

  1. Simplificar os marcos regulatórios, que hoje são excessivamente complexos.
  2. Solucionar os gargalos de crédito que afetam a aquicultura, buscando inspiração nas facilidades já existentes para o agronegócio tradicional.
  3. Estabelecer uma padronização e, simultaneamente, uma diferenciação clara dos nossos produtos, tanto no mercado interno quanto no externo.

Quando me refiro à diferenciação, falo em oferecer ao produtor tecnologias para condução de uma aquicultura competitiva e sustentável. E, ao consumidor, produtos mais acessíveis e com uma variedade e uma qualidade asseguradas nas quais ele possa confiar, incentivando a diversificação do consumo de pescado.

Cerrado Rural Agro - Como a pesquisa da Embrapa tem contribuído e pode continuar a contribuir para a superação desses desafios?

Danielle de Bem Luiz – A Embrapa atua na construção e no desenvolvimento de soluções tecnológicas, seguindo todas as escalas do desenvolvimento. Portanto, ela pesquisa, desenvolve e transfere a tecnologia.

É fundamental entender que essas soluções somente se tornam inovações quando são, de fato, adotadas pelo setor produtivo. Por isso, a parceria da Embrapa com os órgãos de extensão rural é de extrema importância.

Essa colaboração se estende ao governo, especialmente às áreas responsáveis pela elaboração de políticas públicas, pois podemos gerar dados essenciais para que sejam criadas políticas públicas mais assertivas.

Cerrado Rural Agro - Qual a nova missão ou cargo que a gestora assumirá após deixar a liderança da Embrapa Pesca e Aquicultura?

Danielle de Bem Luiz – Minha intenção é realizar um pós-doutorado. No momento, estou em processo de verificação de toda a burocracia interna necessária para que minha liberação seja formalizada.

Cerrado Rural Agro - Como a gestora avalia o legado que deixa para a unidade?

Danielle de Bem Luíz - Acredito entregar uma unidade mais forte, mais articulada e amplamente reconhecida, estabelecida sobre bases sólidas que incluem:

  • Infraestrutura aprimorada;
  • Projetos estratégicos;
  • Articulação eficaz para captação de recursos e parcerias;
  • Clareza estratégica definida; e
  • Uma equipe mobilizada e coesa.

Obrigada.

Nota do editor: Estivemos também,  com o Chefe-Geral eleito, Roberto Flores, que assumirá o comando da Embrapa Pesca e Aquicultura no dia 1º de janeiro de 2026. A entrevista com o novo gestor foi realizada e será publicada nos próximo dia 12 de dezembro.

 

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