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EPOPEIA DO CERRADO BAIANO ][ Humberto Santa Cruz relembra os bastidores do pioneirismo e aponta os desafios do agro

EPOPEIA DO CERRADO BAIANO ][ Humberto Santa Cruz relembra os bastidores do pioneirismo e aponta os desafios do agro

Data de Publicação: 3 de junho de 2026 19:45:00 Em entrevista histórica, o pioneiro detalha a transição do campo para a política, a consolidação da Bahia Farm Show e a necessidade de articulação federal para destravar as ferrovias e rodovias do MATOPIBA.

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Resumo

A trajetória do engenheiro civil que trocou o Rio de Janeiro pelo desbravamento do Oeste baiano na década de 1980, enfrentando o peso da inovação técnica no cultivo de algodão e mamão em uma época sem pesquisas específicas na região. Diante dos desafios locais, liderou a união pioneira dos produtores para ordenar o uso da água nos rios, movimento técnico que originou a fundação da Aiba e transformou a representação dos irrigantes em uma das maiores forças do agronegócio estadual.

 

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Humberto Santa Cruz Filho em captura de
captura de tela durante entrevista
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Por Antônio Oliveira - com participação do produtor rural e ex-presidente da Aiba, Odacil Ranzi

 

Um dos principais executivos da empresa familiar Construtora Santa Isabel, no Rio de Janeiro, o engenheiro civil Humberto Santa Cruz Filho mudou-se para Barreiras em 1984, iniciando suas atividades no agronegócio por meio do Grupo Agronol S/A, do qual já era sócio desde 1970. Protagonista da transformação do Cerrado, ele é um dos fundadores da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), entidade que presidiu por 18 anos e que ajudou a transformar de uma associação regional de irrigantes em uma das maiores forças de representação do agronegócio estadual e nacional.

Em junho de 2016, em reconhecimento à sua trajetória pioneira, recebeu o título de Cidadão Baiano da Assembleia Legislativa da Bahia. Após quase 40 anos dedicados ao desenvolvimento do campo, trilhou caminhos políticos, elegendo-se e reelegendo-se prefeito de Luís Eduardo Magalhães, onde imprimiu na administração pública uma visão técnica e gerencial inovadora.

Nesta entrevista exclusiva, Humberto Santa Cruz resgata a epopeia dos pioneiros sulistas na abertura das terras altas, relembra o custo amargo da inovação em uma época sem pacotes tecnológicos e clama aos bastidores políticos em Brasília para salvar os produtores do endividamento. Com a autoridade de quem ajudou a planejar o ordenamento das águas e as bases da Bahia Farm Show, ele analisa com precisão cirúrgica os gargalos atuais de energia e logística que ainda freiam a verticalização regional e aponta para o futuro, destacando a consolidação do etanol de milho no MATOPIBA e o sucesso da sucessão familiar no campo. Mais do que um balanço econômico, trata-se de um depoimento histórico sobre a ótica do produtor do Cerrado baiano:  fincou raízes na Bahia reinvestindo cada centavo na terra antes de pensar no próprio conforto.

 

Segue a entrevista, realizada por meio virtual nesta quarta-feira, 3 de maio.

 

Antônio Oliveira – Dr. Humberto, preliminarmente, saiba que é um prazer e uma honra muito grande para mim e para a nossa empresa jornalística realizar esta entrevista. Das muitas que já lhe fiz, a última ocorreu em junho de 2005, na sede da Agronol, fazenda de sua família em Barreiras. Naquela oportunidade, o senhor me disse algo que, inclusive, virou a manchete da nossa matéria: 'O Oeste da Bahia não é mais uma incógnita'. Passadas mais de duas décadas, como o senhor atualiza essa sua assertiva diante da realidade atual da região?"

Humberto Santa Cruz -  O Oeste da Bahia hoje tem na parte de grãos, um desenvolvimento acima de qualquer expectativa. Hoje nós temos produtividades de soja, milho, algodão. Eu diria que, em termos de produtividade se não formos os maiores  do mundo, principalmente de soja e milho, algodão também, somos do Brasil.

Então, o trabalho feito por esses agricultores que começaram isso em praticamente nenhuma ajuda, não é? Não podemos  realmente deixar de falar  que a ajuda maior foi da Embrapa. Isso ajudou bastante no início o desenvolvimento de técnicas de produção,  de manejo do solo, desenvolvimento de sementes para a região adequadas, adaptadas para a região, quer dizer, uma série de coisas. Mas o agricultor trabalhou sempre para ajudar isso. E nós nos preocupamos muito com isso e daí a  criação das nossas entidades de pesquisa e de desenvolvimento e a própria Aiba, eue é uma parte de uma ligação mais ligada ao entendimento com  os governos estadual e federal.

Então, acredito que nós estamos  vendo a confirmação disso tudo. Hoje é uma realidade acima de qualquer expectativa. Não vejo  como separar esse andamento do que foi ou a velocidade do que aconteceu no Oeste com esse  trabalho realizado de integração entre essas associações e os órgãos governamentais especialmente  de pesquisa.

A entrevista foi realizada por meio do WhatsApp
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Antônio Oliveira - Antônio Oliveira – Ainda naquela entrevista, o senhor dizia a este repórter, em relação à presença dos governos baianos no Cerrado: “A certeza de que a região de Cerrado na Bahia não é mais uma incerteza, como nos idos de 1980, fez até o governo baiano voltar as suas atenções para a região”. Naquela oportunidade, o senhor ponderou que o Estado vinha dando apoio, inclusive no campo das pesquisas, mas admitiu: “Sempre vai faltar a presença do governo, porque nossa velocidade de desenvolvimento é bem mais rápida do que a ação governamental”. Ao final, criticando a política econômica federal que já sufocava o produtor, o senhor alertou: “Não vamos aguentar isto por muito tempo”. Fazendo um paralelo com aquele cenário de duas décadas atrás, como o senhor avalia a velocidade da ação governamental e a atual crise de endividamento que o setor enfrenta hoje?

Humberto Santa Cruz - Ao analisarmos essa velocidade do nosso desenvolvimento no Oeste da Bahia, constatamos gargalos históricos diante dos quais ainda temos dificuldades para atuar fortemente. O principal deles, sem dúvida, é o problema crônico da energia elétrica. Há 20 anos enfrentamos essa situação e, hoje, por uma série de motivos, o governo do Estado precisa tomar a iniciativa de pressionar a concessionária de energia.

O entrave afeta diretamente nossa capacidade de verticalização da produção, principalmente no setor do algodão, que exige alto padrão de qualidade. O problema não reside apenas na quantidade, mas na qualidade da energia fornecida. O maquinário moderno utilizado no mundo é extremamente sensível a oscilações. A energia precisa ser constante para que indústrias como as de fiação de algodão se estabeleçam na nossa região, o que hoje é inviável. O que acontecia há duas décadas em menor escala tornou-se uma necessidade premente e urgente. A estabilidade energética é o fator primordial para alcançarmos melhores índices de industrialização dos nossos produtos.

Outro gargalo evidente é a demanda logística, a começar pela malha rodoviária. A situação das estradas continua sendo um problema de 20 anos atrás, mas que se aprofundou severamente. A BR-242, que escoa nossa produção para o Porto de Salvador, já está no limite de sua capacidade. Não há espaço para o aumento do fluxo de caminhões nessa rodovia, embora tenhamos mercado para ampliar esse tráfego, atendendo ao Porto de Salvador, ao moinho da M. Dias Branco e ao polo de Camaçari. Passa ano, entra ano, e os problemas logísticos persistem.

"A estabilidade energética é o fator primordial para alcançarmos melhores índices de industrialização dos nossos produtos."

Essas dificuldades de infraestrutura no Oeste da Bahia só não são maiores graças à atuação séria e efetiva da Aiba e da Abapa (Associação Baiana dos Produtores de Algodão), que trabalham intensamente na melhoria da logística estadual. É uma iniciativa regional que merece aplausos. No entanto, quando dependemos de uma articulação maior, principalmente na esfera federal, enfrentamos grandes dificuldades.

É um contrassenso que uma região produtora como o Oeste baiano, integrada ao Tocantins e a Goiás, sofra com essas barreiras para exportar. Precisamos falar também sobre a ferrovia. O projeto está paralisado, com grande parte das obras já executada, mas não vemos movimentação atual para o seu andamento. De nada adianta termos a perspectiva de escoamento pelo Porto de Ilhéus se não tivermos a ferrovia consolidada para otimizar essas exportações. Em suma, os gargalos de energia e logística continuam e, de certa forma, pioraram, porque a nossa produção cresceu muito mais nesses 20 anos do que os investimentos efetivamente realizados pelos órgãos governamentais

Antônio Oliveira – O grupo familiar que o senhor trouxe para o Oeste da Bahia – Agronol -, e que liderou com uma fantástica percepção empreendedora sobre o Cerrado baiano, quebrou muitos paradigmas. O grupo, inclusive, começou a romper o monopólio da soja com a introdução pioneira da melancia, do mamão, do citros e, mais tarde, do café e do algodão, tornando-se exportador dessas frutas. O que embasou o grupo a investir, de forma tão assertiva, em culturas que antes sequer eram pensadas para a região? E nem tinham pesquisas validadas para estas culturas no Cerrado baiano .  Aliás, a Agronol foi uma das pioneiras no sistema de irrigação por pivô central. Comente, por favor, mais este pioneirismo.

Entrevista com Humberto Santa Cruz nas quatro páginas da
versão impressa da Cerrado Rural Agro de junho de 2005:
uma visão muito além daquele tempo (Foto: Antônio Oliveira)
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Humberto Santa Cruz – É verdade. A Agronol sempre foi uma empresa genuinamente inovadora. Um dos primeiros plantios de algodão na região, embora não em escala comercial gigantesca, ocorreu nas nossas áreas. Eu me lembro que, na década de 1990, fomos a Israel para visitar os plantios dos kibutzim. O cultivo de algodão por lá já era muito adiantado para a época, e nós tínhamos a convicção de que essa cultura seria um dos fatores essenciais para a diversificação produtiva do Oeste da Bahia. Sempre trabalhamos com essa visão. Entre 1991 e 1992, produzíamos um algodão de fibra longa direcionado para o fornecimento das Linhas Corrente.

A Agronol teve um papel primordial nessa vanguarda, mas ser inovador também cobra o seu preço, não é Antônio? Muitas das culturas que introduzimos visavam a exportação, como foi o caso do mamão. Chegamos a ser o maior produtor e exportador de mamão formosa do Brasil, além de plantarmos também a variedade papaia. Naquela época, contudo, nós não tínhamos o suporte de uma atividade de pesquisa robusta por trás. Aprendíamos muito com os nossos próprios erros. Buscávamos conhecimento com técnicos de outras praças, mas sabemos que, embora se aproveite a experiência de fora, o que vale de verdade é a pesquisa desenvolvida na própria região, considerando seus fatores climáticos e de solo específicos.

Apesar das dificuldades, o saldo final foi extremamente positivo na minha visão. Produzimos e embarcamos muitos produtos para o mercado internacional, inclusive inhame. Lembro-me de ter viajado para a Inglaterra para negociar a venda de inhame voltada à comunidade indiana que residia em Londres. Também exportamos muito mamão para a Europa, principalmente o papaia, já que para os Estados Unidos enfrentávamos barreiras sanitárias decorrentes da mosca-da-fruta na nossa região. Fomos grandes fornecedores para o mercado europeu. O saldo de todo esse esforço pioneiro foi positivo, mas o custo de aprendizado, de fato, foi alto.

 

Antônio Oliveira - Mais do que uma pergunta, gostaria que o senhor comentasse esta minha observação. No campo da energia verde, nós já abordávamos, naquela entrevista, as matrizes para a indústria de biocombustíveis, e o Cerrado baiano investia na mamona como safrinha, somando cerca de 4 mil hectares. Quando lhe perguntei sobre o futuro daquela cultura na região, o senhor disse acreditar no apoio do governo federal para o setor, mas ponderou que não via a mamona como atividade principal, preferindo apostar na sua viabilidade dentro da agricultura familiar. Voltando para os tempos atuais: a mamona perdeu espaço e hoje vemos gigantes como a Impasa processando milho e sorgo em larga escala aqui no Cerrado baiano. Como o senhor avalia essa transformação e o rumo que o mercado de biocombustíveis tomou?

Dr. Humburto, em foto da década de 1990, numa das
suas entrevista a Cerrado Rural (Arquivo: CRA)
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Humberto Santa Cruz – Sim, e aquela minha afirmação do passado acabou se tornando realidade. A mamona só teria viabilidade se fosse cultivada em pequena escala.

Antônio Oliveira – Faltou um pacote tecnológico para ela, não é?

Humberto Santa Cruz – Não houve pacote tecnológico e os órgãos governamentais não estruturaram nenhum programa consistente de apoio a essa cultura. Além disso, as características do solo e o custo de produção muito elevado no Oeste da Bahia inviabilizam a atividade, já que a nossa região não tem como foco a agricultura familiar ou de pequena escala. Para sobressair no agronegócio do Oeste baiano, é indispensável operar em alta escala.

Esse cenário valida o exemplo atual da Impasa e o mercado de etanol de milho. Nos Estados Unidos, a produção de álcool a partir do milho é algo impressionante, e agora já vemos essa realidade se consolidar no Cerrado brasileiro. O grande trunfo desse modelo é a capacidade de utilizar os próprios subprodutos do grão como fonte de energia. Era justamente isso o que idealizávamos na década de 1980, quando pensamos em introduzir a cana-de-açúcar para criar um polo álcool-químico no Oeste da Bahia.

Aproveitando o gancho sobre a irrigação, um dos fatores que impediram o avanço da cana na época foi justamente a dependência extrema de água. Como o ciclo produtivo da cana exige cerca de 15 a 16 meses até a colheita, a lavoura inevitavelmente enfrentaria o nosso período de estiagem severa, com chuva zero. Embora a cultura apresentasse uma vantagem importante — que era o aproveitamento do bagaço para gerar a energia necessária para mover a própria indústria —, isso não foi o suficiente para viabilizá-la comercialmente naquele momento.

O cenário do milho é completamente diferente. Por isso, acredito fortemente em uma evolução contínua na produção de energia e de biocombustível a partir do milho na nossa região, impulsionada também pela utilização da biomassa e da energia de áreas verdes. Já temos, inclusive, exemplos bem-sucedidos caminhando nessa direção no Oeste da Bahia.

 

Antônio Oliveira – Dr. Humberto, eu convidei para participar desta entrevista o seu contemporâneo e nosso amigo mútuo, Odacil Ranzi. Passo a ele a palavra para conduzir as três próximas perguntas.

Odacil Ranzi - A Agronol foi um divisor de aguas do agro no oeste da Bahia. Como foi a decisão de iniciar o primeiro plantio de algodão?

O emprsário defende a rápida conclusão do
projeto da Oeste-Leste (Foto: Infra S/A)
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Humberto Santa Cruz – Eu costumo dizer que a origem da Agronol está no Rio de Janeiro, em um grupo do setor de construção civil. Com a crise entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980, nós resolvemos diversificar os negócios. A primeira alternativa considerada foi a instalação de uma usina de cana para a produção de etanol.

Naquele período, o governo federal mantinha o Proálcool e havia definido que o Oeste da Bahia abrigaria um polo álcool-químico. Nós entramos nesse segmento focados, primeiramente, em executar o projeto industrial. Com a fábrica projetada, passamos a estudar a viabilidade da parte agrícola, pois entendíamos que a montagem da indústria em si era a parte mais simples e executável em qualquer lugar — para se ter uma ideia, a Capemi mantinha uma usina de álcool em plena Amazônia na época. Contudo, o sucesso de uma agroindústria depende fundamentalmente do campo. Quando começamos a analisar o cultivo da cana, constatamos que havia pouquíssima pesquisa disponível sobre o Cerrado e chegamos à conclusão de que o projeto seria inviável se a lavoura não fosse irrigada.

"O agricultor sulista veio para o Oeste da Bahia com a firme intenção de fincar raízes. Quem criticava não conhecia a nossa resiliência."

O primeiro grande entrave foi que o Proálcool não financiava sistemas de irrigação, o que comprometeu a viabilidade de partida. Mesmo se houvesse linhas de crédito, os custos operacionais da tecnologia na época eram proibitivos. Antônio e Odacil, para vocês terem uma dimensão do desafio: hoje, o Oeste da Bahia conta com cerca de 400 mil hectares irrigados e, mesmo após décadas de desenvolvimento, uma parcela considerável dessas áreas ainda sofre com a falta de energia elétrica estável. Imaginem esse cenário na década de 1980. Sem rede elétrica, éramos obrigados a acionar os pivôs com motores a óleo diesel, o que encarecia o processo e inviabilizava a atividade industrial.

A Agronol nasceu justamente desse esforço de diversificação. Quando chegamos à região, as terras eram extremamente baratas; um hectare custava o equivalente a um maço de cigarros. O desafio real não era adquirir a terra, mas sim fazê-la produzir. O manejo e a correção do solo exigiam um trabalho hercúleo. Foi nesse período que observamos a chegada maciça dos produtores do Sul do país — muitos deles vindos da região de Itaipu. O agricultor sulista sempre teve esse perfil pioneiro de buscar novas fronteiras. Na década de 1950, migraram para o oeste do Paraná; depois, avançaram para o Mato Grosso e, no final dos anos 1970, aportaram no Oeste da Bahia. Posteriormente, esse movimento seguiu expandindo-se para outras áreas do MATOPIBA.

Ao observarmos a chegada desses pequenos produtores focados em grãos, percebemos que eles iniciavam o cultivo da soja somente após uma primeira safra de arroz. Dizia-se na época que o arroz servia para "amansar a terra", uma prática técnica que hoje se tornou totalmente obsoleta. Atualmente, o pacote tecnológico disponível permite plantar a soja diretamente com alta produtividade logo na abertura. Na safra atual de 2026, a produtividade média da soja no Oeste da Bahia, computando as áreas de sequeiro, atinge impressionantes 71 sacas por hectare. Quando começamos, na década de 1980, colher uma média de 20 sacas por hectare era motivo de comemoração...

 

 

Antônio Oliveira – Quando se tinha, naquela época, uma média de 27 sacas por hectare era uma festa...

Humberto Santa Cruz – Sim, era uma verdadeira festa! Sofremos muito no início para consolidar esses índices, enfrentando custos severos e juros pesados. Naquela época de inflação descontrolada, a nossa moeda real de troca era a saca de soja. O produtor financiava um trator no banco e, após cinco anos, devido às distorções econômicas, a dívida equivalia ao preço de dez tratores, enquanto a capacidade de produção continuava a mesma. Para equalizar esse endividamento e viabilizar o futuro da região, a Aiba desempenhou um papel político fundamental. Lideramos intensas negociações em Brasília para reestruturar e adequar os débitos agrícolas à real capacidade de pagamento dos produtores. Esse trabalho de salvaguarda do produtor é um motivo de grande orgulho para todos nós na história da associação.

 

Odacil Ranzi – Quais eram os gargalos do agro na década de 1980 que motivaram a fundação da AIBA (Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia) em junho de 1990?

Humberto Santa Cruz – A fundação da Aiba decorreu de uma necessidade premente de organizarmos e ordenarmos o plantio irrigado na nossa região. Tudo começou com um grupo de produtores que compreendeu que a água era o principal insumo da atividade e que o uso dos rios locais precisava de ordenamento técnico. Afinal, se um produtor fizesse um alto investimento em determinada área e, rio acima, outro usuário começasse a retirar água sem qualquer controle, todo o projeto produtivo da jusante se tornaria economicamente inviável devido à falta desse recurso básico.

Diante desse cenário, firmamos um acordo com o governo do Estado. A Aiba tomou a iniciativa e praticamente custeou um diagnóstico completo, mapeando todos os pontos de captação e retirada de água dos nossos rios. Entregamos esse levantamento detalhado ao poder público, o que serviu de base para viabilizar e estruturar o sistema de outorga de água na região. A partir dali, o usuário precisava da autorização formal de um órgão do governo estadual para captar o recurso. Foi justamente essa urgência em disciplinar as outorgas que motivou a criação da Aiba.

Posteriormente, essa atuação inicial evoluiu significativamente. Enquanto estruturávamos esse trabalho técnico com o Estado, o então governador Paulo Souto destacou a relevância da nossa atuação para o Oeste baiano e sugeriu que a Aiba deveria ampliar seu escopo, passando a envolver e representar todos os produtores da região e, futuramente, de todo o território baiano. Foi a partir dessa visão que alteramos o perfil e o nome da entidade: o que nasceu como Associação de Irrigantes do Oeste da Bahia transformou-se na Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia. A instituição deixou de ter um caráter estritamente regional para assumir uma representatividade de âmbito estadual, desempenhando um papel fundamental no trabalho de convergência e na defesa dos interesses comuns dos nossos associados.

"No início, os produtores do Oeste não construíam mansões; eles moravam em estruturas precárias e convertiam cada centavo de lucro em tecnologia e maquinário."

Odacil Ranzi – Qual é o legado que o senhor deixou como primeiro presidente da AIBA para as futuras diretorias?

Humberto Santa Cruz - No final da década de 1980, nós estávamos muito focados em abrir caminhos na região. A Aiba acabou sendo fundada logo na sequência, em 22 de junho de 1990, e eu tive a honra de presidir a entidade por muitos anos (18 anos/ 9 mandatos consecutivos). Olhando para trás, essa desconfiança que você mencionou reflete uma total falta de compreensão sobre o que é o trabalho feito com seriedade...

Antônio Oliveira – Inclusive, o agronegócio no Oeste da Bahia tem sido um caso de sucesso na sucessão familiar. A segunda e a terceira gerações já estão assumindo o comando de fazendas, grupos empresariais do agro e corporações. Os nativos diziam, naquela época, que vocês fariam apenas duas ou três safras, desertificariam os gerais (as terras altas da região) e iriam embora ricos.

 

Humberto Santa Cruz – Essa visão antiga demonstrava uma total falta de compreensão sobre o que é o trabalho feito com seriedade. Enfrentamos muitas dificuldades, sem dúvida, e as pessoas locais falavam aquilo porque não conheciam o perfil de quem estava chegando. Aqueles produtores que saíram de pequenas propriedades no Paraná e no Rio Grande do Sul vieram para o Oeste da Bahia com a firme intenção de fincar raízes. Eles sabiam que enfrentariam muitos desafios pelo caminho. Quem criticava não conhecia a resiliência, a visão e a determinação que esse grupo tinha para vencer. O tempo provou o contrário: a nossa região hoje é considerada um dos maiores marcos de sucesso no agronegócio brasileiro.

Com a consolidação desse ecossistema, os pioneiros compreenderam a importância de abrir espaço para a segunda geração na gestão das propriedades e das entidades. Quando fundamos a Aiba, o grupo de participantes era muito reduzido. Era difícil encontrar quem pudesse dedicar parte do seu tempo ao espírito associativo. Se o produtor não tivesse uma estrutura organizacional muito boa dentro da sua própria fazenda, ele simplesmente não conseguia se afastar para colaborar com a associação. Por causa dessa escassez de lideranças no início, muitos de nós acabamos permanecendo na diretoria por mais tempo do que desejávamos. Gradativamente, as empresas agrícolas se profissionalizaram, permitindo que novos nomes assumissem essas posições. Hoje, esses novos dirigentes já começam a preparar os seus sucessores, transmitindo a eles a importância de dar continuidade a esse legado associativo e de porteira para dentro.

Essa evolução geracional trouxe um avanço extraordinário na área de comercialização. No início, ninguém discutia critérios técnicos como uniformidade ou comprimento de fibra de algodão no Oeste da Bahia. No começo do cultivo, buscava-se prioritariamente uma fibra mais longa. Com o tempo, o mercado percebeu que o fator primordial para a indústria têxtil é a uniformidade da fibra. Essa mudança de patamar exigiu um esforço imenso de conscientização junto aos compradores do nosso algodão. Hoje, vemos a Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão) desempenhar um trabalho impressionante na classificação, padronização e governança da comercialização da pluma nacional.

Esse processo de refinamento comercial é muito mais evidente no algodão do que na soja. No complexo soja, embora também existam mecanismos de classificação, a comercialização como commodity é mais direta. Além disso, a cadeia da soja avançou de forma mais expressiva na verticalização, com a instalação de indústrias esmagadoras que, apesar de ainda sofrerem com as deficiências da rede de energia elétrica regional, encontram-se em um estágio mais estabilizado. Todo esse arranjo entre produção, tecnologia e mercado foi sustentado pelo associativismo. A Fundação Bahia, por exemplo, cumpre um papel fundamental ao realizar pesquisas próprias e atuar em parceria direta com a Embrapa. O dinamismo atual do Oeste baiano fundamenta-se nessa união de forças entre produtores, desenvolvimento tecnológico e interlocução contínua com as esferas governamentais.

 

Antônio Oliveira – Dr. Humberto, eu sei que seu tempo é escasso — como sempre, não é? (risos) —, desde quando o conheci, lá no início da década de 1980.

 

Humberto Santa Cruz – Eu diria que hoje em dia é que meu tempo já está bem parcelado.

 

Antônio Oliveira – Era um custo conseguir uma entrevista com o senhor. Vamos em frente: o modelo de liderança setorial implementado no Oeste da Bahia tornou-se referência para outras fronteiras agrícolas do país, como o MATOPIBA. Na sua visão, qual é o papel das entidades de classe hoje para garantir que a sustentabilidade e a tecnologia continuem avançando no campo?

 

Humberto Santa Cruz – Olha, Antônio, esse papel é cada vez mais fundamental. O espírito associativo e a força dessas entidades são indispensáveis, principalmente na condução do relacionamento com as esferas governamentais. Não podemos cometer o erro de achar que resolveremos tudo sozinhos. Não temos condições de sustentar o trabalho que fazemos no Oeste sem o apoio dos governos estadual e federal.

"Sem uma associação estruturada, é simplesmente impossível conseguir uma audiência com o alto escalão de um governo para falar em nome próprio."

Retornando ao que vivenciamos no passado, sem a Aiba nós não teríamos solucionado um problema básico e sufocante daquela era pioneira: o endividamento. As nossas dívidas eram gigantescas para os padrões da época, justamente pelo volume de investimentos necessários para viabilizar o Oeste da Bahia. Toda a agricultura brasileira enfrentava dificuldades, mas o Oeste sofria mais por se tratar de uma fronteira agrícola isolada, onde os custos de implantação eram muito mais elevados. Ter uma associação que represente esses produtores por meio de um trabalho sério — em que todos reconheçam que o objetivo final é o bem-estar coletivo, e não o benefício individual de um ou outro — é um divisor de águas. Essa visão das nossas lideranças é a base de tudo.

Atualmente, a nossa pauta de reivindicações mudou de figura, mas continua urgente: brigamos por mais estabilidade na energia elétrica e pela superação dos gargalos logísticos. Os dirigentes atuais têm uma visão muito clara desses desafios. Para se ter uma ideia do impacto real disso no bolso do produtor, hoje pagamos cerca de R$ 30 a mais por tonelada de frete simplesmente porque as nossas estradas perderam a capacidade de absorver o escoamento da produção.

Temos que lutar continuamente para reverter esse quadro. Sem uma associação estruturada, é simplesmente impossível conseguir uma audiência com o alto escalão de um governo para falar em nome próprio. É preciso falar por meio de uma instituição que carregue bagagem e credibilidade. A Aiba acumula um histórico de 35 anos de serviços prestados e completa 36 anos de fundação agora em 2026. Essa legitimidade é o alicerce que aprendemos a construir e que fazia parte dos ideais dos fundadores.

O que me deixa seguro é ver que os nossos dirigentes atuais dão continuidade a esse propósito de maneira muito transparente. Mesmo sabendo que, apesar de todo o empenho, os problemas estruturais persistem, isso não é motivo para desistir. Pelo contrário: é um chamado para persistir e lutar cada vez mais para garantir o desenvolvimento e a sustentabilidade da nossa região.

 

Antônio Oliveira – O senhor também teve papel fundamental na criação da Bahia Farm Show, hoje a maior feira de tecnologia agrícola do Norte e Nordeste, e posicionada entre as cinco maiores do Brasil. Como o senhor tem acompanhado essa revolução e qual é a real importância do evento para os contextos regional, estadual e nacional?

Humberto Santa Cruz – Tudo começou com a Agrishow Nordeste. Nós iniciamos a feira em um espaço provisório dentro do perímetro urbano da cidade de Luís Eduardo Magalhães, mas a nossa visão indicava, de forma muito clara, a urgência de encontrarmos uma área definitiva. Nesse processo, a prefeitura municipal desempenhou um papel estratégico: o município precisava expandir o seu polo industrial e manifestou o interesse em permutar a área urbana. Firmamos um acordo no qual o espaço antigo foi integrado ao polo industrial e a organização da feira recebeu a área atual, com todas as condições necessárias para realizar os investimentos em infraestrutura. Foi esse esforço conjunto que viabilizou o que é hoje a Bahia Farm Show. Ao longo dessa trajetória de duas décadas, a feira consolidou-se como um marco absoluto, tanto na geração de negócios quanto na difusão de novas tecnologias.

O evento extrapolou os limites do Oeste baiano para se transformar em uma referência para todo o MATOPIBA, figurando hoje entre as maiores feiras de tecnologia agrícola do país, com tendência de crescimento contínuo. A cada ano que passa, a dimensão do evento impressiona mais. Eu, inclusive, estou me preparando para comparecer e participar ativamente das atividades, celebrando essa história construída por pessoas que acreditaram na força do nosso agronegócio desde o início.

 

 

Antônio Oliveira – O que eu tenho notado nesses mais 50 minutos de entrevista é que o senhor incorporou o Oeste da Bahia e o Cerrado no coração. O senhor sempre se refere à região como “nosso Oeste” e “nossa região”, mesmo tendo retornado para o Rio de Janeiro há cerca de dez anos. Essa vivência marcou definitivamente a sua trajetória profissional e pessoal, não é, Dr. Humberto?

 

Vista parcial do parque de irrigação da Fazenda
Agronol em fotos dos anos 1990 (Foto: Agronol)
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Humberto Santa Cruz – Sim, sem dúvida alguma. E em determinada época da minha trajetória, compreendi que o agronegócio precisava de representatividade também no campo político. Foi essa percepção que me motivou a disputar as eleições e governar o município de Luís Eduardo Magalhães por dois mandatos como prefeito. Não tenho o menor arrependimento; foi um período extremamente importante...

Antônio Oliveira – ... O senhor revolucionou a gestão local e fez um governo essencialmente técnico.

Humberto Santa Cruz – Nós trabalhamos intensamente para implantar uma nova dinâmica na gestão pública. Estávamos habituados a um modelo político tradicional e quisemos demonstrar que era possível inovar na Bahia, encarando a administração municipal com um olhar gerencial e transparente. Avalio que fomos bem-sucedidos. O legado está visível no ritmo de crescimento atual de Luís Eduardo Magalhães, uma cidade que se desenvolve de forma impressionante e que serve de exemplo prático de como o agro funciona como mola propulsora para o progresso de toda uma sociedade.

 

 

Antônio Oliveira – Deixo à sua disposição este espaço para as suas considerações finais, ao mesmo tempo em que agradeço imensamente por esta rica conversa. Caso eu tenha deixado de perguntar algo que o senhor considere fundamental, o espaço também está aberto para os seus comentários.

 

 

Humberto Santa Cruz – Eu é que agradeço a oportunidade, Antônio. Conheço o seu trabalho de longa data, sempre dedicado a registrar e apoiar o desenvolvimento do ecossistema agrícola regional. Para encerrar, eu reforço que o principal desafio do agronegócio atual — não apenas na nossa região, mas em todo o país — é garantir que as demandas de infraestrutura sejam encaradas como prioridades de Estado para solidificar os avanços conquistados.

Precisamos solucionar, de forma definitiva, os problemas crônicos de logística e de energia elétrica. Essa não é uma pauta exclusiva dos produtores rurais; é uma necessidade de toda a sociedade regional e estadual, pois o desenvolvimento socioeconômico depende da eliminação dessas barreiras. Fica aqui o meu apelo para que as autoridades competentes tomem consciência da urgência de investimentos na recuperação e duplicação de rodovias, na conclusão das ferrovias e na melhoria não apenas da quantidade, mas da qualidade da eletrificação rural. A estabilidade técnica é o que confere segurança jurídica e operacional para o produtor continuar investindo em tecnologia e expandindo suas atividades de forma sustentável.

O Oeste baiano começou a sua história sob muita desconfiança externa; poucos acreditavam no potencial daquelas terras. Hoje, o Cerrado é uma peça fundamental na engrenagem econômica do Brasil. E o maior recado que posso deixar para ilustrar a verdade dessa trajetória reside na própria mentalidade do produtor pioneiro: quando enfrentávamos as crises de endividamento no passado, demonstrávamos aos bancos e ao governo que os débitos não eram fruto de gastos supérfluos. Os produtores do Oeste não construíam mansões ou investiam em luxo doméstico; eles moravam em estruturas precárias e convertiam cada centavo de lucro em correção de solo, ampliação de área plantada e aquisição de maquinário moderno. Fincamos raízes trabalhando na terra e reinvestindo no próprio negócio. Essa dedicação integral à produção é o verdadeiro DNA do nosso agronegócio.

 

Humberto Santa Cruz — Oeste da Bahia — Agropioneirismo — AIBA — Bahia Farm Show — Luís Eduardo Magalhães — Sucessão Familiar no Agro — Infraestrutura Logística — Matopiba — História do Cerrado Baiano — Irrigação Agrícola — Abrapa

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