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ARTIGO TÉCNICO ][ Tilapicultura em alerta: queda no investimento em matrizes pode comprometer o futuro do setor

ARTIGO TÉCNICO ][ Tilapicultura em alerta: queda no investimento em matrizes pode comprometer o futuro do setor

Data de Publicação: 9 de março de 2026 16:17:00 A queda no investimento em matrizes de alta qualidade ameaça a competitividade da tilápia brasileira, que já supera 1 milhão de toneladas.

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Resumo

Embora a produção de tilápia no Brasil bata recordes, o setor enfrenta um gargalo crítico: a baixa renovação genética dos plantéis. A prática da "seleção massal" por alevinocultores eleva a consanguinidade e reduz a produtividade, enquanto o uso de matrizes melhoradas garante ganhos de até 15% por geração e maior segurança sanitária.

 

 

Por Ricardo Pereira Ribeiro1, Carlos Antônio Lopes de Oliveira1, Nelson Maurício Lopera Barrero2, Jayme Aparecido Povh3, Darci Carlos Fornari4, Thiago Fontolan Tardivo5, Alexandra Inês dos Santos6, Pedro Luiz de Castro7, Fabio Rosa Sussel8, Filipe Chagas Teodózio de Araújo9, Humberto Todesco11

Em relatório elaborado pela Phibro (Boletim Mensal da Aquicultura – Jan./2026), conforme dados do Bacen, verifica-se uma tendência preocupante na produção de alevinos de tilápias do Nilo no Brasil. Embora os investimentos em infraestrutura de produção estejam em expansão, contribuindo para o crescimento do setor, que segundo dados da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR) no ano de  2025 ultrapassou pela primeira vez a marca de 1.000.000 de toneladas de peixes produzidos, observa-se uma redução significativa dos recursos destinados à aquisição e à renovação do plantel de matrizes com qualidade genética superior.

Situação que pode resultar em perdas de competitividade para o setor nos próximos anos. Isso porque os programas de melhoramento genético tradicionais normalmente apresentam ganhos médios entre gerações que variam de 3% a 15%, em um intervalo de gerações de aproximadamente 12 meses. Dessa forma, uma taxa de reposição inadequada ou deficitária mantém progressivamente o nível genético dos plantéis abaixo do potencial produtivo do que poderia ser alcançado.

Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agro
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No Brasil, existem alguns Programas de Melhoramento nos quais o objetivo é a distribuição de material genético na forma de alevinos para a engorda, atendendo a demanda de produção dos alevinocultores comerciais e/ou às necessidades da própria empresa em ciclos fechados. Acredita-se que este grupo represente algo em torno de 30 a 35% do mercado, eu algo em torno de 350 a 400 milhões de alevinos revertidos por ano.

Também existem programas de melhoramento genético de caráter público que se dedicam à distribuição de material genético na forma de matrizes comerciais para os alevinocultores, matrizes de origem GIFT (Genetically Improved of Farmed Tilapia} selecionadas utilizando métodos estatísticos robustos que consideram as informações de pedigree e são avaliadas em condições brasileiras de cultivo. Estes programas, representados pela UEM (Universidade Estadual de Maringá) Lihagem GIFT/TILAMAX/UEM, no Paraná e EPAGRI, Linhagem GIFT/, em Santa Catarina, atendem de forma recorrente, com grande frequência de reposição, cerca de 20% dos alevinocultores brasileiros. Dados da Embrapa Pantanal, salientam ser a GIFT a principal genética em produção, presente no Brasil atualmente (https://bs.sede.embrapa.br/2023/relatorios/pantanal_tilapia.pdf).

Estima-se que atualmente o número de matrizes melhoradas em produção comercial no país, provenientes tanto dos programas privados quanto de programas públicos oficiais, seja de aproximadamente 250 a 300 mil, com capacidade conjunta para gerar cerca de 650 milhões de alevinos revertidos por ano.

Em 2025 foram produzidas no Brasil 707.495 toneladas de tilápias (PEIXEBR, 2026), número que permite estimar, considerando os índices médios de mortalidade de ciclo total (da eclosão de larvas até o abate) de 60%, e peso médio de abate entre 800 a 900g, que gera uma necessidade aproximada de 1,4 bilhão de alevinos por ano no Brasil.

 Conclui-se, assim, que mais da metade dos alevinos produzidos no país são obtidos a partir de matrizes produzidas e selecionadas pelo próprio alevinocultor, normalmente a partir da prática de seleção massal e utilizando parte de sua estrutura de produção de alevinos para a produção de matrizes de forma privada. Algo que as vezes até parece ser a mesma coisa, porém há um abismo de diferença aí.

Neste cenário, onde se realiza a seleção massal, usando apenas dados produtivos e características visuais dos animais, seria importante ponderar três fatores essenciais:  1) quão acurada é a seleção, 2) quanto de variabilidade genética existe e 3) qual é a intensidade de seleção (relação candidato:vaga).

  1. A acurácia da seleção, que indica quão bem a avaliação dos indivíduos reflete seu valor genético verdadeiro é dependente da herdabilidade da característica, sendo para velocidade de crescimento não maior que 40%.
  2. A variabilidade genética preconizada em planteis comerciais deve ser baixa, principalmente pela necessidade de que o alevinocultor disponibilize ao seu cliente animais com padronização mais rigorosa, mas que ao mesmo tempo não possuam problemas de consanguinidade como deformidades, baixo desempenho e alta susceptibilidade aos desafios ambientais, neste quesito a genética tem papel fundamental.
  3. Por fim, para a intensidade de seleção, podemos usar a analogia de um conceito bastante conhecido, a relação candidato:vaga, quanto maior a relação maior a pressão de seleção e maior o ganho. Por exemplo, numa relação de candidato:vaga de 100:1, apenas 1% dos candidatos são aprovados, ou seja, a grande maioria não é selecionada, acreditando-se que os candidatos foram bem selecionados.

"A genética é um investimento herdável e duradouro; o manejo, uma prática que qualquer um pode copiar."

Para fins ilustrativos, consideremos a situação hipotética de um alevinocultor que necessite de 1000 matrizes fêmeas 500 machos para reposição do seu plantel, e decide que fará isto a partir de sua própria estrutura. Nesse cenário, caso sejam alojados 10.000 alevinos sem processo de reversão sexual, assumindo-se uma proporção de 50% machos e 50% fêmeas, haverá 5000 indivíduos machos e 5000 indivíduos fêmeas. Assim a relação candidato:vaga será de 1:10 para machos e 1:5 para fêmeas, ou seja, implementará uma proporção de seleção de 10% para machos e de 20% para fêmeas.

 

Mantendo os 10.000 animais alojados em 3000m2 de lâmina d’agua, o custo bruto para produzir estes animais, considerando zero de mortalidade e um peso médio de 800g, seria de aproximadamente R$ 51.000,00. Isto envolve a economia com a aquisição das matrizes (R$17,00/matriz) ou seja R$ 17.000,00 para se obter as mesmas 1000 fêmeas e 500 machos com genética de ponta e da última geração de seleção de um Programa de Melhoramento Genético consolidado que comercialize estas matrizes e, ainda libera o espaço de tanque  de produção (3000m2) de cerca de 8 toneladas de peixes gordos e gerar uma receita bruta de R$ 77.280,00 (Preço CEPEA de 9,66 R$/Kg para os Grandes Lagos em 27/02/2026), ou para a produção de alevinos comerciais para a engorda.

A aquisição de matrizes melhoradas é um investimento certo e altamente lucrativo. Hoje no Brasil, o valor de uma fêmea melhorada não passa de R$ 20,00, girando em torno de R$15 a R$ 17.

 
Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agro
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Fazendo-se uma “conta de padaria”, uma fêmea, pode produzir, por estação reprodutiva, entre 2.000 e 3.000 alevinos revertidos, podendo alcançar de 5000 a 6000 alevinos revertidos durante sua vida produtiva, dois anos ou duas safras completas. Considerando a comercialização de 1.000 alevinos a R$ 150,00, a receita mínima gerada seria de aproximadamente R$ 750,00 por fêmea, que custou R$ 17 reais mais R$ 12 com alimentação, ou seja, um custo/investimento de R$ 29 para uma receita bruta de R$ 750,00.

Não estão computados os impactos do aumento da consanguinidade nem as diferenças na qualidade genética dos reprodutores obtidos nos dois cenários apresentados. Em programas de melhoramento genéticos consolidados, existem regras para manter a endogamia em níveis baixos e a diferença na superioridade genética para velocidade de crescimento pode chegar a 100%, comparando com os resultados utilizando seleção massal, quando não se considera a genealogia dos animais.

Alternativas para o controle da consanguinidade, como o monitoramento genético por meio de marcadores moleculares, representam uma estratégia que deve ser considerada em programas de melhoramento. Entretanto, para esta modalidade de seleção, caso se opte por estratégias que priorizem ganhos genéticos elevados, haverá uma rápida redução da variabilidade genética da população, acompanhada pelo aumento da endogamia. Esse processo pode comprometer a resposta à seleção ao longo do tempo, resultando rapidamente em ganhos genéticos pouco expressivos e, consequentemente, na inviabilização do programa de melhoramento. Dessa forma, o uso dessas ferramentas deve compor uma abordagem mais ampla de gestão genética, buscando equilibrar o controle da consanguinidade com a manutenção de avanços consistentes no desempenho produtivo ao longo das gerações.

Dependendo do pool genético do plantel de reprodutores, em um esquema de seleção massal, acasalamentos bem ordenados, podem proporcionar ganhos genéticos modestos por três ou quatro gerações. No entanto, quando se busca acelerar os ganhos genéticos por meio de maior intensidade de seleção, normalmente renuncia-se à variabilidade acompanhada do aumento da endogamia. Processo que pode levar à diminuição do progresso genético e ao surgimento de outros problemas associados à consanguinidade, condenando a efetividade e a sustentabilidade do programa de melhoramento muito rapidamente.

Esse entendimento é urgente e, principalmente requer ponderar corretamente a estratégia escolhida por parte dos alevinocultores de tilápias no Brasil, de destinar parte da sua estrutura para seleção e produção de matrizes, não fecha a conta!!

A repetição sistemática de práticas ineficientes de seleção de matrizes e consequentemente comercialização de alevinos com qualidade genética inferior, mesmo com elevada padronização e qualidade sanitária, pode resultar em perda da competitividade no Setor, abrindo a possibilidade de implementação de um monopólio, o que já ocorre em outras espécies. As boas práticas de manejo e políticas de controle de qualidade nas entregas de alevinos, podem ser implementadas por qualquer produtor, ao contrário da genética que é herdável e duradoura ao longo das gerações.

"Já viu algum produtor de suínos ou aves desenvolver suas próprias matrizes? A tilapicultura precisa amadurecer."

De modo geral, os nossos produtores no Brasil, estão criando demanda para que empresas que investiram e qualificam sua genética para a competitividade se apoderem deste mercado.

É como “tirar doce de criança”.

 
 
Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agro
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Além dos impactos produtivos, a ausência de controle genético e o uso recorrente de matrizes consanguíneas também representam riscos sanitários relevantes. Plantéis com elevada endogamia tendem a apresentar menor variabilidade genética e maior homogeneidade fisiológica, o que pode reduzir a capacidade de resposta imunológica e aumentar a susceptibilidade a enfermidades bacterianas, virais e parasitárias. Nestas condições, surtos sanitários tendem a se disseminar de forma mais rápida e com maior impacto negativo, seja produtivo ou econômico, especialmente em sistemas intensivos. Neste contexto, a reposição adequada e programada dos plantéis assume papel estratégico, pois permite manter a relação adequada entre desempenho e variabilidade genética, evita o acúmulo de consanguinidade e garante maior controle sobre a qualidade genética ao longo das gerações.

Ainda dá tempo de mudar!!!

O infográfico a seguir ilustra os fundamentos científicos que sustentam a consolidação da cadeia de proteína aquática no Brasil. Como ilustrado, a evolução efetiva dos plantéis não ocorre ao acaso, mas resulta de um processo contínuo e estruturado de obtenção de ganhos genéticos cumulativos.

Em tempo, cabe a reflexão: já viu algum produtor de suínos ou aves desenvolver suas próprias matrizes?

 Vamos debater? Como sua empresa gerencia o potencial genético do plantel e os riscos populacionais?

 

#Publicação simultânea com o site Piscishow & Avisuleite.

 

1Dr. Professor Associado do Departamento de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá; 2 Dr. Professor Associado do Departamento de Zootecnia da Universidade Estadual de Londrina; 3 Dr. Professor Titular da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – Campo Grande MS; 4 Dr. Coordenador Técnico e Consultor – Diretor Presidente da AQUAMAT; 5 Dr. Supervisor Técnico da Linha Aqua da  Agronorte Nutrição Animal; 6 Dra. Pesquisadora da EPAGRI; 7 Dr. Pesquisador em Genética e Nutrição de Peixes; 8 Dr. Pesquisador Científico Nível 6 do Instituto de Pesca de São Paulo; 9 Dr. Sócio Proprietário da Real Fish; 11 Dr. Geneticista do Programa de Melhoramento Genético da Linhagem GTF;

REFERÊNCIAS

Anuário Brasileiro da Piscicultura, PeixeBR 2016. Associação Brasileira de Piscicultura, Brasilia, 2026. 65p. Anuário 2026 | Peixe BR

Boletim Técnico  Aquicultura, Janeiro 2026, Análise do Mercado de Tilápia. Phibro. 11p. 13007 PHI Boletim Mensal Aquacultura - Janeiro (1).pdf

Relatório de avaliação dos impactos de soluções tecnológicas geradas pela Embrapa, Embrapa Pantanal, Corumbá,  2024. 34p. https://bs.sede.embrapa.br/2023/relatorios/pantanal_tilapia.pdf .

 

Melhoramento Genético, Tilápia do Nilo, Alevinocultores, Produtividade Aquícola, Consanguinidade, Anuário Peixe BR 2026.

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