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ENTREVISTA / Francisco Hidalgo: “O tambaqui pode vir a ser um substituto da tilápia, com qualidade e competitividade nos mercados nacional e internacional”

ENTREVISTA / Francisco Hidalgo: “O tambaqui pode vir a ser um substituto da tilápia, com qualidade e competitividade nos mercados nacional e internacional”

Data de Publicação: 22 de agosto de 2022 19:52:00 Presidente da Associação dos Criadores de Peixes de Rondônia (Acripar) diz que o tambaqui não tem os problemas sanitários que exigem muitos cuidados e custos como ocorre com a tilápia. Mas ele, claro, não menospreza a exótica tilápia: “Nós só temos é que potencializar qualquer que seja a proteína, seja ela nativa, seja ela a exótica” #entrevista #franciscofarianahidalgo #pago #acripar #entrevistacomfranciscofarina #tambaqui #ifc2022

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Por Antônio Oliveira

Presidente da Associação dos Criadores de Peixes de Rondônia (Acripar) diz que o tambaqui não tem os problemas sanitários que exigem muitos cuidados e custos como ocorre com a tilápia. Mas ele, claro, não menospreza a exótica tilápia: “Nós só temos é que potencializar qualquer que seja a proteína, seja ela nativa, seja ela a exótica”

Esta entrevista  faz parte da série voltada para o IFC 2022 e da Semana do Pescado, eventos dos quais o Centro-Oeste Farm News é média partner. Nela, o piscicultor fala do futuro dos peixes amazônicos nos mercados nacional e internacional; sobre as pesquisas para o desenvolvimento de uma espécie de tambaqui sem espinhos; da importância do IFC e da Semana do Pescado para os peixes nativos.

Segue a entrevista.

Francisco Farina Hidalgo, presidente da Acripar (Foto: Ascom/Acripar)

 

Centro-Oeste Farm News (COFARM): Presidente, a piscicultura brasileira está vivendo um bom momento, embalado pela tilápia. Como esse crescimento tem refletido nos peixes nativos, principalmente no tambaqui e no pirarucu?

Francisco Hidalgo Farina:  Considerando que o consumo per capta nacional ainda está muito baixo,  em que pese o que já fizemos de investimentos neste volume de produção nacional da tilápia, entendemos que,  junto do crescimento da tilápia e de outras espécies, estamos também neste bom momento colocando os nativos da Amazônia, especialmente o tambaqui e o pirarucu, no mercado. Esperamos alcançar uma fatia maior de mercado, considerando a qualidade dos nativos  e que também possamos continuar crescendo para que  possamos, também,  atender o mercado nacional e internacional.

COFARM: O que é preciso, então, para que os nativos ocupem maiores espaços nos mercados nacional e internacional?

Francisco Hidalgo Farina: Neste momento, nós estamos tentando vencer dois grandes gargalos: torná-los conhecidos no mercado e, também, temos uma enorme dificuldade de processamento na região Norte que impede que cheguemos a todos os mercados. Então, o marketing é algo que nós já estamos trabalhando, temos feito avanços. Hoje, o tambaqui e o pirarucu são nativos da Amazônia bastantes conhecidos no mercado nacional e já começam a entrar no mercado internacional. Contudo, nós ainda temos outro grande gargalo que é entregar este produto processado, ou melhor, goumertizado.  Isto é que faz a diferença no mercado consumidor.

COFARM: Nesta linha de pensamento, o tambaqui e o pirarucu estão próximos de um pacote tecnológico que os tornem mais fáceis de criar e mais presentes na mesa do consumidor?

Francisco Hidalgo Farina: Sim. Hoje nós estamos dialogando com startups internacionais que propõem a melhoria genética,  também em parceria com a Embrapa, para que possamos, no caso do tambaqui, buscar a eliminação do espinho Y, o que também estamos fazendo por meio do desenvolvimento de máquinas, de tecnologias, para que haja um processo de desossa mecanizado. Isto será de muita importância valorizando muito os nossos nativos, especialmente o tambaqui, diminuindo custos e proporcionando, assim,  maior facilidade de aquisição pelo consumidor final, ter competitividade de mercado.

COFARM: E como estão os trabalhos de pesquisas para o desenvolvimento do tambaqui sem espinhos, que estão sendo feitos a partir de um acaso (descoberta de um lote de tambaquis que, devido a uma anomalia genética, nasceram sem espinhos Y)?

Francisco Hidalgo Farina: Nós temos algumas frentes, mais especificamente a Embrapa, que detém o projeto. Mas isto está demandando recursos para investimento nessa pesquisa. Não são valores pequenos, e nós teremos que ter, neste momento,  atuação junto aos governos, a bancada da Amazônia no Congresso Nacional para que, assim,  possam contribuir, colocando emendas, auxiliando para que a Embrapa cumpra este papel. Também estamos buscando isto nas parcerias privadas.

COFARM: Se esta pesquisa atingir seus objetivos, como o senhor imagina o mercado futuro para o tambaqui?

Francisco Hidalgo Farina: O próprio projeto da Embrapa vislumbra, nós também entendemos isto. O nativo da Amazônia é uma espécie que trás singularidades e fica no topo da cadeia na sua categoria. Nós estamos consumindo, hoje, outras espécies como a tilápia, por exemplo, e a gente já sabe que a tilápia tem necessidade de duas vacinas – uma, enquanto alevino,  e outra enquanto juvenil -, para ficar pronta para o mercado. Isto significa que temos aí, nesta espécie, problemas de ordem sanitária. Já o tambaqui ainda não tem esta deficiência e nós imaginamos que isto continuará por longas datas e, se fizermos a tarefa de casa bem feita, não teremos estas complicações tão cedo. Imaginamos que, a tilápia, por exemplo, que é produzida em todo o mundo, está muito mais suscetível a uma possível infestação de qualquer que seja a problema de ordem de saúde, de sanidade. E o tambaqui pode vir a ser um substituto à altura, com qualidade e competitividade de mercado atendendo o mercado nacional e internacional.

COFARM: Quanto ao tambaqui-mirim, ele tem futuro no mercado?

Francisco Hidalgo Farina: Entendemos que, especialmente quando tivermos eliminado os espinhos Y, o tambaqui-mirim será um produto que atenderá boa parte do mercado, uma vez que,  hoje,  inúmeras pessoas vivem sozinhas ou com uma única companhia. O tambaqui mirim é o que vai atender em porções adequadas a este consumidor específico. Atualmente, nós já estamos atendendo uma parte do mercado com tambaquis de abaixo de 700 gramas; com tambaqui de 2 quilos para o  mercado comum nacional e na região Norte nós temos ainda o consumo, na maioria, de tambaqui de 3 quilos, que atende grandes famílias, é cultura amazônica. Neste caso, quando estivermos trabalhando o tambaqui goumertizado certamente precisaremos adaptá-lo para porções adequadas para um indivíduo e neste caso é um mercado muito promissor, porque todos nós sabemos da individualidade, do grande número de pessoas que vivem, hoje, sozinhas. Não por acaso, os apartamentos deixaram de ter cem, cento e tantos metros quadrados para serem stands de 20 a 40 metros quadrados.

COFARM: Presidente, recentemente a Polícia Federal revelou a pesca e o comércio ilegal de peixes amazônicos.  O senhor tem a dimensão deste crime para a piscicultura legal destes nativos?

Francisco Hidalgo Farina: Neste caso, nós não estamos falando de aquicultura, mas de extrativismo e entendemos, sim,  que há problemas nessa área, mas que na verdade é uma fatia, ainda, muito pequena do que de fato é o que aqui estamos produzindo em cativeiro. No nosso caso, não estamos potencializando e nem defendendo a pesca predatória e especialmente no que tange a bacia hídrica amazônica. O que nós estamos fazendo é potencializando, melhorando a genética do tambaqui que é captado nos rios da região e, depois,  repovoando os rios com genética melhor. Entendemos que a pesca predatória está prejudicando a sobrevivência do ribeirinho,  daqueles que sobrevivem da natureza. No caso da piscicultura comercial, nós estamos trabalhando veementemente para produzirmos e aí o princípio é da aquicultura produzida ainda na sua maior parte,  na região amazônica, em tanques escavados. Mas teremos com certeza avanços. Neste sentido, ainda não temos experiências, mas em breve, certamente, teremos bons resultados na tentativa de produção em tanques-redes aproveitando os grandes recursos hídricos que temos disponíveis em toda a região amazônica, sem que se faça necessário a pesca predatória ou de qualquer outro crime ambiental. Muito pelo contrário, o que nós devemos fazer é repovoar e enriquecer a nossa bacia hidrográfica amazônica.

COFARM: A piscicultura no Brasil ainda é uma cadeia produtiva muito desorganizada. Em sua opinião, o que falta para a sua organização?

Francisco Hidalgo Farina: Infelizmente todas as cadeias quando se iniciam têm inúmeras dificuldades. Uma delas é a falta de organização. Ainda estamos vivendo uma era em que aqueles que estão produzindo estão vislumbrando os interesses específicos de um ou de outro produtor. Há uma disputa entre aqueles que estão produzindo. Não atentaram ainda para a necessidade do associativismo ou do cooperativismo e do corporativismo que é produzir em escalas maiores para que possamos produzir com mais qualidade, com menos custos, competirmos melhor no mercado nacional e internacional. Mas Isto é perfeitamente natural, é uma fase que está em transição, é passageiro. Hoje a cadeia já começa a se organizar para quebrar essas barreiras e começarmos a trabalhar unificados, a exemplo de cooperativas no Sul do país que já funcionam desta forma. E isto é uma realidade de mercado porque hoje se imagina que eu vou produzir um peixe, vou fazer o preço dele e vou colocar um lucro que eu gostaria que fosse para que ele seja comercializado. Isto não funciona assim. O mercado consumidor está cada dia mais com dificuldades de aquisição,  especialmente de proteínas e não só proteína de peixes. O mundo consome, na sua maior quantidade proteína de peixe. Mas nós temos consciência que cada vez mais precisamos baratear mais o custo desta proteína. E isto só é possível com a   produção em escala. E produção em escala se faz em grupos e não de forma isolada.

COFARM: A procura por nativos pelo mercado externo está próxima de ser uma realidade?

Francisco Hidalgo Farina: A busca dos nativos pelo mercado externo já é uma realidade. Nós é que não estamos preparados, não fizemos a tarefa de casa para atendermos a demanda. Infelizmente, enquanto o produtor e as autoridades responsáveis - e aqui nós estamos falando de todos aqueles que compõem seja o corpo técnico, seja o corpo institucional  -, não entenderam ainda que poderíamos ou podemos potencializar em muito as nossas exportações de proteínas com a cadeia do pescado, que é a proteína mais consumida no mundo. Mas, como dizem que para tudo tem a sua hora, esta hora chegou e nós estamos aqui, neste momento, trabalhando veementemente frente a todas as autoridades competentes e também com a cadeia produtiva para que possamos estabilizar esta condição.

O festival do tambaqui é um grande investimento no marketing da espécie (Foto: Emater-RO)

 

COFARM: A Acripar vai participar do IFC 2022 com mais uma rodada do já consolidado “Festival do Tambaqui da Amazônia”.  Qual a sua expectativa do evento e desta participação da associação?

Francisco Hidalgo Farina: Este é um evento que já trouxe muitas informações, facilidades, trocas de experiências e tecnologias para a cadeia como um todo. Para nós, é de muita valia nos fazermos presentes, conhecendo o que o mercado nacional e internacional está oferecendo como tecnologias de ferramentas e informações técnicas, bem como a oportunidade de levarmos mais uma vez o nosso nativo da Amazônia para que ele possa ser, cada vez mais,  melhor conhecido pelo mercado nacional, latino-americano e internacional e desta forma atrairmos não só o consumidor, que é o nosso objetivo, promovendo a degustação mas, também, o investidor que é aquele que vai nos ajudar a desenvolver ferramentas para que possamos ser competitivos no mercado nacional e internacional.

COFARM: Quanto a Semana do Pescado, de que forma a Acripar vai participar desta campanha de vendas e o que espera dele para a cadeia produtiva dos nativos amazônicos?

Francisco Hidalgo Farina: Entendemos que a Semana do Pescado é muito importante para que nós possamos fomentar o consumo da proteína de peixe. A Acripar realiza mais uma vez, além de todo o esforço que vamos fazer, no estado de Rondônia, vamos estar promovendo mais um festival nacional e, agora , internacional do tambaqui, reunindo todas as capitais da Amazônia Legal e também buscando mercados internacionais, como Nova York e Paris. No caso de Nova York, este já é um grande consumidor de proteína de peixe brasileiro. Nós queremos reafirmar e nos fazermos presentes com o nativo, que ele também tenha uma fatia deste mercado. No caso do mercado europeu, é uma batalha que nós já estamos junto com as demais representatividades e por meio da CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária), do Mapa (Ministério da Agricultura) e da Sap (Secretaria de Aquicultura e Pesca), buscando reabrir este mercado que é um dos mais importantes do mercado internacional. De quatro anos e meio para cá, nós não temos exportações para aquele mercado. Nós vislumbramos, sim, que isto possa ser possível e,  inclusive, tendo distinção entre a produção da aquicultura e a produção de pesca extrativista, no caso da pesca marinha.

COFARM: A tilápia está avançando de forma gradativa para a Amazônia. Como a Acripar vê este avanço?

Francisco Hidalgo Farina: A tilápia está posta no mundo todo. É um exótico que tem tido muitos avanços na sua cadeia produtiva pelo volume que ela reproduz. Nós entendemos que isto é natural, mas esperamos que isto não traga nenhum prejuízo  para a bacia hidrográfica da Amazônia, por ser um predador e que nós possamos ter mais produção de todas as espécies. Enfim, o mundo está muito mais carente de proteína, inclusive de peixe. Então, nós só temos é que potencializar qualquer que seja a proteína, seja ela nativa, seja ela a exótica. Aquela que conseguirmos adaptar melhor, fazer com que ela possa ser produzida e que chegue ao mercado com condições e competitividade de mercado para ela ser consumida pela maioria das famílias, brasileiras ou não, como um proteína saudável e acessível a maioria da população.

 

 

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