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ENTREVISTA ESPECIAL – Ao comemorar seus 24 anos, Coapa anuncia seu primeiro projeto de verticalização da cooperativa

ENTREVISTA ESPECIAL – Ao comemorar seus 24 anos, Coapa anuncia seu primeiro projeto de verticalização da cooperativa

Data de Publicação: 8 de julho de 2022 19:55:00 Em entrevista exclusiva à este repórter, o presidente da Cooperativa Agroindustrial do Tocantins (Coapa), Ricardo Khouri, faz um breve relato da trajetória da instituição e anuncia projetos que vão verticalizá-la, agregando valores humanos e financeiros ao processo produtivo da região centro-norte do Tocantins

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Ricardo khouri, agrônomo e agropecuarista, presidente a Coapa. (Foto: Coapa - Motagem: Cerrado Comunicação)

Por Antônio Oliveira

No último dia 27 de junho, a Cooperativa Agroindustrial do Tocantins (Coapa) completou seus 24 anos de existência. A instituição nasceu em forma de associação como meio de organizar os novos colonos do Prodecer III, sequência das etapas implantadas no noroeste de Minas Gerais, sul do Maranhão e oeste da Bahia. “Nasceu da união de homens e mulheres determinados e orientados por um mesmo ideal de lealdade ao cooperativismo e, sobretudo, de um forte sentimento de unidade entre companheiros.”,  se auto define a Coapa.

Naquele início de colonização do Cerrado da região centro-norte do Tocantins (1998), a cooperativa selecionada – fator obrigatório -,  para ser a executora do projeto foi a Coopersan - Cooperativa Agropecuária Mista de São João LTDA, que passou pela avaliação da Companhia de Promoção Agrícola (Campo), Ministério da Agricultura e, principalmente, pelo Banco do Brasil responsável pela análise da parte cadastral.

História: grupo de fundadores da Coapa (Foto: Coapa)

Infelizmente, conforme a Coapa, durante a implantação do Projeto, essa cooperativa passou por sérias dificuldades financeiras até entrar em fase de liquidação, deixando os produtores e as instituições envolvidas em sérias dificuldades.

Foi aí que homens e mulheres se uniram à luz do cooperativismo e do ideal de desenvolvimento social e econômico.

Oportuno a esta comemoração, fiz uma entrevista com o presidente da Coapa, Ricardo Khouri, que, pela unanimidade de seus colegas cooperados presidente a cooperativa praticamente desde o seu início. E o faz com muito equilíbrio, espírito humanitário e empreendedor.

Segue a entrevista.

Centro-Oeste Farm News –  Presidente, nestes 24 anos da Coapa, o que contar de derrotas e vitórias durante esta trajetória?

Ricardo Khouri – Nestes 24 anos de existência, de fundação da Coapa, falar de vitórias é falar de uma sequência de fatos, de acontecimentos. Uns ocorridos de forma tranquila; outros,  forçados, numa verdadeira saga, desde a sua fundação. Mas foram muitas vitórias.  Algumas delas, graças a Deus, a maior parte delas, tendo um desfecho feliz. Mas, basicamente, a grande vitória é termos uma cooperativa absolutamente consolidada, que pratica o cooperativismo raiz sem perder de vista os princípios cooperativistas, focada em mercado, como obviamente não poderia deixar de ser; que equilibra muito bem a dimensão social e a dimensão econômica de uma cooperativa, principalmente de uma cooperativa de grãos, um ramo do agro tão competitivo e tão entregue a um mercado muitas vezes cruel. Falar de derrotas, nós a superamos sempre com muita resiliência, que é uma marca nossa: resiliência e superação. Talvez, a grande derrota nossa, falando especificamente de derrota - que eu prefiro chamar de frustração -, é ainda não termos conseguido efetivar e implantar a verticalização de um processo agroindustrial dos nossos grãos aqui na cooperativa. Mas sinto, claramente, que a gente está próximo disto. Mas eu queria ter iniciado este projeto já há uma década. Mas tudo tem o seu tempo e a sua hora. E até mesmo para implantar um projeto agroindustrial, você precisa de uma série de condições,  como escala de produção. E a Coapa nunca esteve tão madura para perseguir este objetivo como agora.

Nestes 24 anos, a Coapa vem desenvolvendo uma política de
valorização de seus recursos humanos (Foto: Coapa)

COFN –  O senhor diria que, sob o ponto de vista empresarial, foi melhor para aqueles antigos produtores do Prodecer (Programa Nipo-Brasileiro de Desenvolvimento do Cerrado), que integram a Coapa,  empreender cooperando do que de forma individual?

Ricardo Khouri – É claro que nós, produtores/fundadores da Coapa, lá em 1998, que integravam o Prodecer, não tivemos, na verdade, outra alternativa a não ser ocupar um espaço que originalmente não seria nosso, dos produtores locais. Mas como a cooperativa selecionada           ( pela Companhia de Ação Agrícola [Campo], que coordenou a implantação do Prodecer nos cerrados) para dar todo o suporte comercial e técnico aos colonos, não veio para o Tocantins, restou-nos a opção de nos organizarmos, fundarmos a nossa associação que,  posteriormente, se converteu numa cooperativa. Aqueles produtores/fundadores, hoje - eu não tenho a menor sombra de dúvidas -, se sentem num dever absolutamente cumprindo, porque atingimos as metas e os resultados. Hoje, o que cada produtor/fundador capitalizou, foi extremamente valorizado, haja vista que maioria absoluta dos produtores/fundadores da Coapa se encontram em condições de produzir até hoje e vem fazendo isto com maestria. Não há dúvidas de que o cooperativismo uniu, propiciou condições e,  principalmente,  teve um fator de promoção agropecuária, porque mostrou ao Tocantins, ao Brasil e até mesmo aos organismos internacionais que se relacionavam conosco que a prática de uma agricultura intensa, bastante tecnificada no estado tinha uma resposta muito positiva. Mostrou à todo o Brasil o quanto o Tocantins tem potencial para ser um novo celeiro nacional.

COFN –  Esta sua resposta provoca a seguinte pergunta: O que falta para completar este processo?

Ricardo Khouri – Com esta consolidação, com este aumento de área, Pedro Afonso e região, hoje, têm um somatório de aproximadamente 75 mil hectares divididos entre os cooperados da Coapa. Hoje eu diria que, complementando a resposta à sua primeira pergunta, o que falta é exatamente agregarmos renda. Ao invés de sermos exportadores de grãos, transformarmos esses grãos em proteína animal. É claro que tem outras vertentes também como, por exemplo, uma fábrica de ração de porte médio, que nós já estamos por inaugurar; a questão também de uma indústria de etanol à base de milho, onde os co-produtos, como o DDG (Dried Distillers Grains - grãos secos de destilaria), entre outros, têm uma participação muito forte, muito destacada na produção de bovino de corte. Então, o campo é muito fértil e eu diria que num espaço de tempo de médio - entre três e cinco anos -,  a agroindustrialização da nossa região vai ocorrer. Aliás, já começou a ocorrer. Nós já estamos tratando de planos de negócios de maneira muito mais efetiva do que tratávamos há tempos e o que falta complementar, agora,  é a cereja do bolo, é a parte de desenvolvimento, geração de empregos e renda e transformação - e a transformação de grãos aqui na nossa região. Exportar sim, mas exportar proteína animal e deixar a proteína vegetal para ser processada aqui e gerarmos empregos e renda no nosso país e na nossa região.

Auditório da Cooperativa e sócios em assembleia geral (Foto: Coapa)

COFN –  A visão e o empreendedorismo das cooperativas catarinenses e paranaenses inspiram a Coapa?

Ricardo Khouri – Não resta dúvida. Nós temos, no Sul do país, especificamente nos estados do Paraná e Santa Catarina, cooperativas bem maiores do que a Coapa e cooperativas do mesmo porte da Coapa. Quando eu falo do mesmo porte, é em relação a cooperativas com número de cooperados, com área plantada e faturamento equivalentes aos de nossa cooperativa.  Elas inspiram numa terceira onda que a gente já falou na resposta à sua pergunta anterior, que é o empreendedorismo para transformação desses grãos, agregando renda à cooperativa e aos seus cooperados e gerando várias oportunidades. Então, as cooperativas do Sul do país comprovam taxativamente que esse processo funciona e funciona bem. Elas ocupam espaço no mercado. Hoje, basta uma simples análise da participação delas no mercado para nos convencer de visão empreendedora delas.

COFN –  Então, a exemplo daquelas cooperativas, a Coapa está a caminho do processamento de proteínas animais, verticalizando a cooperativa. Isto?

Ricardo Khouri –   Não resta dúvida que a produção primária, hoje,   dos cooperados da Coapa já está absolutamente consolidada. Nós temos uma “máquina” à disposição dos cooperados, atuando nas duas pontas do processo primário (cultivo e comercialização), da produção de grãos que são o fornecimento de insumos, assistência técnica, comercialização de grãos, infraestrutura de armazenagem capaz de receber com eficiência e eficácia esses grãos, principalmente soja e milho. E nós já iniciamos essa verticalização com a implantação de uma fábrica de ração de porte médio para atender o mercado localizado. Ela deve ser inaugurada nos próximos dias. Mas não tenha dúvidas que o próximo passo agora é trabalhar os projetos mais ambiciosos. Nós desenvolvemos um plano de negócios onde medimos a viabilidade, mas já começamos a fazer uma análise muito técnica e econômica de como é que se daria a implantação de um cluster de avicultura. Aliado a isso, também a implantação de uma unidade de etanol à base de milho, onde o seu subproduto poderia ser transformado também em proteína animal. Claro que nós não pretendemos abraçar o mundo de uma vez só, mas hoje em dia eu diria que esses dois empreendimentos, vamos dizer assim, estão muito próximos de acontecer e a parte de avicultura, talvez daqui a alguns anos. Não muitos anos, mais em dois ou três anos, nós devemos ter a sinalização da parte do etanol à base de milho. É um projeto de menor monta financeira, onde nós já temos  uma área de milho cultivada, que nos permite sonhar com isso. Nós estamos, atualmente,  numa série de conversas. Esse é o foco da nossa produção, hoje.

COFN –  Qual seria – ou estão sendo -,  as barreiras para iniciar e consolidar essa agregação de valor à produção dos cooperados?

Ricardo Khouri – Eu diria que as barreiras, hoje, é a  insegurança jurídica que nos impede de percorrer um caminho de viabilidade plena de implantação dessas agroindústrias na nossa região, oferecendo totais condições ou que grandes empresas se aliem a nós, façam uma aliança estratégica com nossa cooperativa ou a nossa cooperativa sendo protagonista nesse processo e onde a gente teria recursos a um custo de captação e taxas muito melhores do que se praticam hoje. Então, o que precisamos, agora, já que estamos tão próximos e já temos o setor primário consolidado, é a obtenção de uma linha de crédito com captação barata e de longo prazo, algo superior a 12 ou 15 anos. Aí sim, nós teremos uma verdadeira explosão de desenvolvimento na nossa região.

Um dos complexos de secagem e armazenagem de grãos (Foto: Coapa)

COFN –  Cooperar não é apenas produzir e faturar economicamente. É ter compromisso com a sociedade. Como está a relação da Coapa com a sociedade da região?

Ricardo Khouri –  A relação da Coapa com a comunidade – ou com as comunidades - aonde ela está inserida - não só Pedro Afonso.  São, também, Tupirama, Bom Jesus, Santa Maria, Rio Sono, Centenário, Recursolândia, entre outras. A relação é de absoluto respeito a essas comunidades e ao próprio estado do Tocantins, porque o cooperativismo,  de maneira inequívoca, concentra um conjunto de esforços que viabiliza não só o setor produtivo que, como eu disse nas respostas anteriores, está bastante consolidado. Então, em pequenas ações, a gente procura atuar junto às comunidades e aos poderes legalmente constituídos, como as prefeituras municipais, as entidades filantrópicas. A gente procura desenvolver ações. Claro que não temos a pretensão e nem conseguiríamos resolver todas as mazelas sociais da nossa região e do nosso estado. Mas, nós temos alcançado bons resultados, principalmente no tocante a incentivar e promover o voluntariado, por meio de uma ação muito coordenada, que é uma ação do cooperativismo nacional, que é o “Dia C de Cooperar”. A gente tem feito ações, algumas singelas, outras de um alcance muito mais profundo, mas temos uma relação de absoluto respeito com as comunidades na qual estamos inseridos. E isso eu tenho ouvido de gestores públicos, de empresas que fornecem bens e serviços para a nossa cooperativa, que é uma atuação absolutamente diferenciada de uma empresa mercantil normal. Nada contra as empresas mercantis, mas o cooperativismo promove um bem-estar geral. E isso é facilmente observado quando se analisa o Índice de Desenvolvimento Humano  (IDH) dos municípios ou das regiões onde há sequer uma cooperativa instalada, principalmente do setor agro. A gente nota claramente isso. Ainda não é um dado científico, mas isso a gente já percebe claramente. Então, o respeito é total e absoluto, não só com  as comunidades, mas com o meio ambiente de uma maneira geral.

Complexo administrativo, técnico e comercial da
Coapa em Pedro Afonso (Foto: Coapa)

COFN –  Por fim, presidente, gostaria que o senhor ressaltasse aqui a atuação e importância dos principais pioneiros da Coapa nesta sua consolidação.

Ricardo Khouri –  Falar do pioneirismo é falar da vanguarda da atuação dos sócio-fundadores e daqueles cooperados que vieram depois da fundação,  no aumento extraordinário do número do quadro social da cooperativa e da área plantada. Quando a gente olha pra trás e faz uma reflexão da atuação daqueles pioneiros que acreditaram no corporativismo,  enquanto forma de organização social e econômica, a gente tem um sentimento de muita satisfação, porque fomos muito questionados no início que o corporativismo não caberia numa região de fronteira. Pelo contrário, aí é que cabe, mesmo. E tivemos tantas pessoas e tantas instituições, tantos agentes públicos, agentes privados, pessoal de empresas nacionais e multinacionais que lutaram para que a agricultura dignificada fosse realmente desenvolvida no estado do Tocantins, fosse implantada e tivesse resultados satisfatórios,  e a força do cooperativismo materializou isso.  Esses pioneiros, e as suas respectivas famílias, têm um legado para o estado do Tocantins, para Pedro Afonso e região,  de absoluta entrega, obstinação e de nunca desistir, por mais que tenham tido dificuldades gigantescas. Há duas décadas , onde nem tudo era incerteza e tudo era somente luta, entrega e dedicação, onde nem havíamos tido ainda o preparo, nem a capacitação para desenvolver um cooperativismo moderno e eficiente. Mas há a determinação, o empenho e a luta desses pioneiros, aliada a uma estratégia muito clara e um apoio também de organismos internacionais como o Jica (banco japonês que financiou o Prodecer), por exemplo, que enxergaram essa realidade e confiaram naqueles pioneiros que estavam fundando a Coapa. Trabalharam no sentido de fortalecer isso. Tivemos, também,  o apoio do Governo do Estado do Tocantins, por meio da Secretaria da Agricultura. Tivemos o apoio da Campo. Enfim, foram tantas pessoas que eu não quero aqui citar nomes de pessoas porque, fatalmente,  cairíamos no erro de esquecer alguém. Não se trata de medir a importância de cada um deles, mas se trata de reconhecer que cada um deles foi um tijolinho que compôs o alicerce de uma cooperativa que vai entrar para a história como a cooperativa que viabilizou a agricultura unificada no Estado do Tocantins.

Foto recente de alguns pioneiros em confraternização no
clube social da cooperativa. No centro, de camiseta, o pioneiro Silvio
Espedito Sandri,  já falecido (Foto: Coapa)

Os pioneiros fundadores da Coapa

Ricardo Benedito Khouri, Silvio Espedito Sandri, Glauro Rodrigues da Silva, José Tarcísio Borges, Edmar Corrêa de Oliveira, Sebastião Antônio Diniz Nogueira, Jorge Luiz Maronezzi, Evanis Roberto Lopes, João Damasceno de Sá Filho, José Guilherme Paggiaro, Mário Hiroshi Okuyama, Marcio Donizete José da Silva, Cláudio Siqueira, Pedro Afonso de Oliveira Tavares, José Francisco Amaral, Antônio Milhomem de Castro, Alessandro Virgílio Zarone, Silvio Peres Rodrigues, Francisco Gonzaga Reis, Fulgêncio Branquinho de Oliveira, Elton Valdir Schmitz, Antônio Alessandro Bizão, Euid Eduardo de Moura, Gilberto Caixeta Borges, Artur Ferreira Hordones, Francisco José Moura de Mendonça, Denis de Campos Bernardes e Luiz Alvino Duarte de Lima e Silva.

 

Perfil de Ricardo Khouri

Ricardo Benedito Khouri é paulista de Taubaté. Engenheiro agrônomo, atuou ligado ao agronegócio nos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, como profissional da Companhia de Promoção Agrícola (CAMPO) na implantação e coordenação de Projetos Agropecuários (Prodecer,Profir, Provarze, entre outros), manejo de irrigação e manejo de fertilizantes de solo.

Chegou a Pedro Afonso em setembro de 1996 para participar do Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados - 3ª Fase (Prodecer III).

*Nota do entrevistador: Nesta oportunidade, não poderia deixar de registrar aqui a nossa gratidão a pioneiros como Moacir Catabriga (nunca esqueci de sua cara de espanto ao receber eu e minha filha, descendo de um motoneta velha, na qual cruzamos o centro e o norte do Tocantins em reportagens para a primeira edição da nossa Cerrado Rural Agronegócios);  José Edgar (sempre companheiro; humilde e sábio, sua cadeira nas assembleias da Coapa, é sempre a última do auditório); o próprio Ricardo Khouri; a sempre gentil, de espírito materno para todos, e diplomata, Maria Silvana, entre outros, que desde a fundação da minha revista, em 2003,  e até a extinção da sua  versão imprensa, em 2017 e web, em 2020, me acolheram com consideração e respeito. E segue com estas mesma recíprocas nos nossos novos empreendimentos editoriais.

 

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