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ENTREVISTA – “Temos feito grande esforço para atrair mais agroindústrias, mas há alguns gargalos que nos impedem de avançar na velocidade desejada”, diz Odacil Ranzi, presidente da Aiba

ENTREVISTA – “Temos feito grande esforço para atrair mais agroindústrias, mas há alguns gargalos que nos impedem de avançar na velocidade desejada”, diz Odacil Ranzi, presidente da Aiba

Data de Publicação: 9 de julho de 2022 19:55:00 Estive, na condição de jornalista de agro, em Luis Eduardo Magalhães e em Barreiras, tratando de assuntos de interesse de alguns nichos do setor, que dependem da cultura de grãos, e me encontrei com o atual presidente da Aiba – minha principal pauta neste trabalho. Encontro positivo, que resultou, entre outros, nesta entrevista. Nela, Ranzi faz um balanço do agro no Brasil e no oeste da Bahia; informa conquistas e anseios barrados. Uma boa entrevista.

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Odacil Ranzi, um dos pioneiros da agricultura no Cerrado baiano, é presidente da
sistema Aiba (Foto: Ascom/Aiba - Montagem: Cerrado Comunicação)

 

Por Antônio Oliveira

No oeste da Bahia, principalmente em terras altas de Cerrado, se desenvolve uma das mais produtivas e tecnificadas agricultura brasileira que,  há 40 anos começou com a monocultura da soja e se diversificou – soja, milho, café, trigo, frutas, pecuária de corte, entre outras culturas. Só de grãos, na safra 2021/22, os produtores colheram algo em torno de 10 milhões de toneladas e, de algodão, meio milhão de toneladas. A região coloca a Bahia como o segundo maior produtor brasileiro da fibra.

Todo este desenvolvimento refletiu positivamente não só na economia baiana, sobretudo do oeste do estado, como no social e na infraestrutura regional. A agricultura nesta região, praticada, em sua maioria por migrantes do Sul e Sudeste do Brasil, construiu e desenvolve uma cidade moderna – Luis Eduardo Magalhães, uma das que mais crescem no Brasil -; fez crescer, melhorou e desenvolve muito outra – Barreiras, principal polo regional. Da mesma forma, outras cidades que contracenam nesta bela epopeia agrícola.

Mas, talvez, esse desenvolvimento não fosse tão positivo, se por trás dele não tivessem a cabeça e as mãos de mulheres e homens com visão de futuro e preocupados com a sustentabilidade ambiental e social. Há mais de 30 anos, movidos pela necessidade da organização e união em torno das pesquisas, tecnologias, sustentabilidade ambiental e social, e criaram a Associação dos Irrigantes da Bahia – que se transformou, anos mais tarde, em Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). De lá para cá, a instituição tem sido conduzida por grandes líderes do agro baiano, a começar por Humberto Santa Cruz – o grande timoneiro -, sucedido por João Carlos Jacobson, Walter Horita, Julio Buzato, Celestino Zanella e, atualmente, por Odacil Ranzi – não menos timoneiro e o mais entrosado nos anseios e necessidade sociais das duas principais cidades da região. Sua vivência entre Barreiras, Luis Eduardo e comunidades agrícolas o faz assim.

E aqui não se trata de jogar confetes na instituição ou quem quer que seja. Escrevo baseado no que tenho visto, nestas mais de 3 décadas, na condição de jornalista e empreendedor, acompanhando o desenvolvimento da região e a atuação da Aiba e de seus principais atores. As altas produtividades agrícolas no oeste da Bahia são resultados desta união de cabeças pensantes. Idem o respeito que os poderes públicos e a iniciativa privada de outros setores têm pela instituição.

E foi com o Odacil Ranzi que estivemos mais uma vez – entre tantas oportunidades de boas conversas -, nós últimos. Recente encontro com resultou, entre outros assuntos de interesse do oeste da Bahia, nesta entrevista e num artigo sobre a importante atuação do Fundecis (a ser publicado nos próximos dias).

Segue a entrevista.

Cidade de Luís Eduardo Magalhães, construída pela soja e desenvolvida
pelo agro como um todo (Foto: Prefeitura de Luís Eduardo)

Centro-Oeste Farm News – Presidente, qual é a análise que o senhor faz do atual momento do agronegócio brasileiro, principalmente do oeste da Bahia?

Odacil Ranzi – O agronegócio brasileiro, em especial no oeste baiano, vem passando por um excelente momento. Grande parte disso se deve ao trabalho, à pesquisa e a visão de futuro dos produtores, que nos levaram a alcançar os maiores índices de produtividade do Brasil. Por outro lado, o recente momento nos trouxe uma grande responsabilidade, com a tarefa de continuar produzindo em larga escala em meio à pandemia. E, por fim, a grande demanda mundial por alimentos contribuiu para a elevação do valor das commodities, que é um fator determinante para o grande volume de negócios que tem sido feitos, e tem ajudado na recuperação da economia do país.

COFN – A Bahia Farm Show deste ano, após dois anos sem ser realizada, em função da pandemia do novo coronavírus, teve resultados surpreendentes em termos de negociações financeiras  e de público. Como o senhor interpreta esses resultados?

Odacil Ranzi - Tudo o que acontece, seja no agro ou em outro setor, geralmente é resultado de uma soma de fatores. O fato de a Bahia Farm Show ter crescido tanto, com 360 expositores, mais de 100 mil visitantes e a prospecção de 7,9 bilhões de reais, reflete o trabalho feito pela Aiba, que mesmo durante a pandemia realizou eventos virtuais de sucesso, que chegaram a 15 milhões de impressões. Isto manteve o nome da feira no imaginário das pessoas e mostrou a grandeza do evento e do oeste baiano. A não realização do evento durante dois anos de pandemia também criou uma demanda reprimida, que teve vazão desde o primeiro dia da BFS, com a venda de tecnologias atuais e inovadoras.

COFN – A agricultura de grãos e fibras no oeste da Bahia, nos últimos anos, proporcionou a sociedade baiana melhorias sociais, econômicas e estruturais sensacionais: construiu e desenvolve uma cidade; melhorou e é a base do desenvolvimento de diversas outras. Qual é o limite deste setor e de seus empreendedores?

Odacil Ranzi -  O processo evolutivo ocorre com o passar do tempo, pelas experiências acumuladas e as necessidades que vão surgindo. Então, temos buscado avançar em todos os setores, e temos feito isso com muito êxito, mas sabemos que nunca chegaremos ao limite, porque novos desafios vão surgir. Para se ter ideia do quanto progredimos, hoje o oeste baiano tem diversas estradas asfaltadas em áreas rurais, e outras tantas que estão sendo construídas ou em fase de projeto. E vale ressaltar, que são obras conduzidas pelas associações Aiba e Abapa (Associação Baiana de Produtores de Algodão), com o apoio financeiro do Prodeagro e dos produtores locais. Além disso, há uma busca incessante por telecomunicações, energia elétrica e segurança jurídica. Há, ainda, outros limites, definidos na legislação ambiental, que temos respeitado e ajudado a cuidar do nosso meio ambiente da melhor forma possível. No âmbito social, há uma grande contribuição do setor agrícola, com uma imensa geração de emprego e renda e o apoio às entidades que realizam trabalho social, por meio do Fundesis (Fundo para o Desenvolvimento Integrado e Sustentável da Bahia, programa mantido pela Aiba, por meio do Instituto Aiba).

COFN – Neste processo, o desenvolvimento da agroindústria na região não está lento? Já não deveria ter na região mais indústrias de transformação, por exemplo, do milho, da soja, do café e do algodão?

Odacil Ranzi - Sim. Deveríamos ter um desenvolvimento mais representativo neste segmento, pois assim poderíamos agregar valor aos nossos produtos agrícolas. A Aiba e seus associados têm feito um grande esforço para atrair mais agroindústrias para a região, mas há alguns gargalos que nos impedem de avançar na velocidade desejada. Entre os mais importantes: o licenciamento ambiental para a instalação de empreendimentos e a oferta de energia. Neste campo, a Aiba e outras entidades de classe da região têm somado esforços no diálogo com as três esferas de governo e com os poderes Legislativo e Judiciário para oferecer mais condições aos interessados em investir no oeste da bahia. Está em andamento a instalação de unidades de beneficiamento de etanol, trigo e de produção de ração animal.

Uma das centenas de projetos sociais apoiadas pelo Fundecis
(Foto: Ascom/Aiba)

COFN – Cinco setores da produção de proteína animal vêm se desenvolvendo lentamente no oeste na Bahia: a pecuária de corte e a de leite;  a avicultura; a suinocultura e a aquicultura. A região, por suas condições edafoclimáticas e de abundância de matéria-prima para ração, tem todas as condições de ser uma das maiores do Brasil na produção primária e processamento, abastecendo o país e exportando, concorrendo com outras regiões brasileiras com vocação para estes setores. De onde vem o entrave? Dos governos, dos produtores ou do empresariado?

Odacil Ranzi -  Como disse anteriormente, isto se deve à evolução dentro da matriz produtiva. Quarenta anos atrás o oeste baiano tinha vastas extensões de terras desabitadas e improdutivas. Dez anos depois a realidade já começava a mudar significativamente. Hoje, a agricultura atingiu níveis de excelência e a matriz produtiva começa a se diversificar. Há, nos gerais (terras altas e planas do Cerrado baiano) e nos vales, muitos criadores de bovinos, caprinos e ovinos evoluindo com a adoção de genética melhorada e novas formas de manejo. Há, também, produtores de grãos que estão consorciando a produção com a criação de gado. Então, a pecuária está se desenvolvendo muito rápido no oeste da bahia, e traz grandes expectativas para um ‘boom’ da produção de proteína animal para um futuro próximo. A avicultura, a aquicultura e a suinocultura também têm grande potencial. Mas há, claro, entraves que precisam ser resolvidos.

COFN – Como a Aiba se colocaria para ajudar a alavancar estes setores?

Odacil Ranzi - A Aiba passou a existir devido as necessidades. Os produtores, em 1990, perceberam que a atividade agrícola no oeste baiano havia crescido e tinha, ainda, muito potencial de crescimento, e que o setor não poderia ficar à deriva, sem um norte. Então, eles se reuniram em torno das demandas e criaram a instituição que, hoje, conta com 1.300 associados, defende os produtores, dialoga com o setor público, orienta a classe sobre a adoção de boas práticas e luta pela segurança jurídica para o setor. Portanto, atualmente está mais fácil levar a voz desses produtores para quem tem poder de decisão. Um árduo, mas produtivo caminho já foi trilhado e a Aiba tem contribuído, direta e indiretamente, com o desenvolvimento de todo o setor econômico regional.

Base Avançada do Grupamento Aéreo da PM da Bahia, construída
pelo Governo da Bahia em parceria com a Aiba (Foto: Aiba)

COFN – Presidente, além de desenvolver uma agricultura altamente produtiva e tecnológica, a Aiba promove uma integração exemplar entre produção no campo e sustentabilidade social e ambiental – principalmente social, por meio do Fundesis e do Instituto Aiba. O que move os agricultores baianos nesta ação?

Odacil Ranzi – Nós temos uma enorme gratidão por esta terra que nos recebeu e acolheu muito bem, algumas décadas atrás. E somos gratos não apenas com palavras, mas com importantes ações que vêm sendo desenvolvidas pelas entidades, em nome dos produtores, para a sociedade oestina. O Fundesis é um programa social sem igual no Brasil, que capta recursos dos produtores e investe em projetos sociais. Começou com um investimento anual de pouco menos de 300 mil, mas intensificou a arrecadação e chegou, no último edital a R$2,7 milhões disponibilizados. Ao todo já são mais de R$ 10 milhões de reais investidos por esta iniciativa que é conduzida pela Aiba, por meio do Instituto Aiba. Fora isto, as entidades do agro já investiram muitos recursos em apoio a causas de interesse social, como na pandemia, em que milhões foram doados para a compra de equipamentos e insumos para unidades hospitalares. A doação mais recente foi recebida pelo Hospital do Oeste, que mais uma vez foi contemplado com os recursos do Ingresso Solidário, que doa para a unidade de saúde parte da arrecadação da bilheteria da Bahia Farm Show. Desta vez o valor foi de mais de R$78 mil.

COFN – O Brasil se prepara para eleger novos governadores, legisladores e presidente da República. O que o agro baiano espera daqueles novos mandatários e legisladores que serão revelados pelas urnas?

Odacil Ranzi - Esperamos que governantes e parlamentares que vão assumir o próximo mandato reconheçam e defendam este setor que tem sido o motor da nossa economia e tem papel fundamental para garantir a segurança alimentar do Brasil e do mundo. Precisamos de mais celeridade e menos burocracia nas soluções dos problemas que travam o desenvolvimento do agro. Sendo assim, qualquer homem público que esteja de acordo com o desenvolvimento da sociedade brasileira vai olhar para o agronegócio como um setor fundamental para o nosso futuro. Respeito, diálogo e parceria, esses são os ingredientes para o bom entendimento em qualquer ambiente. E é isso o que temos a oferecer.

COFN – E qual é o papel da Aiba neste processo?

Odacil Ranzi – A Aiba, no papel de entidade de classe, apartidária, está na condição de interlocutora. Conversa, recebe e apresenta suas demandas a qualquer postulante ou representante de instituição pública ou privada. O que nos interessa é o sucesso do produtor rural, a manutenção dos recursos naturais e a melhoria da qualidade de vida das pessoas do campo e da cidade.

CCOFN –  Obrigado presidente.

Odacil Ranzi - Nós, da Aiba, da Bahia Farm Show e do Instituto Aiba agradecemos pelo espaço concedido. Estamos sempre à disposição e com os olhos voltados para um oeste baiano cada vez mais desenvolvido social, ambiental e economicamente.

 

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