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ESPECIAL - RIO SÃO FRANCISCO: Vale fértil para exportações (I e II )

ESPECIAL - RIO SÃO FRANCISCO: Vale fértil para exportações (I e II )

Data de Publicação: 27 de maio de 2024 15:34:00 Centro-Oeste Farm News publica a partir desta segunda-feira (27) série de reportagens que mostra as mudanças pelas quais passa o Vale do Rio São Francisco e os processos de exportação de frutas do semiárido brasileiro. A série é uma produção da CNA, distribuída pela Agência ANBA

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Plantação de uvas em Juazeiro, na Bahia: verde que surge no meio do clima
semiárido e vegetação da Caatinga (Foto> Rafael Vieira/CNA)

 

Por Marcos Carrieri* para a Agência  ANBA

Juazeiro, Bahia – Manga sem fiapo e para comer com colher, uvas doces e sem sementes são o resultado mais visível de investimentos que conseguem fazer do Vale do Rio São Francisco, no semiárido brasileiro, um centro de produção e exportação de frutas para o mundo todo. Em uma área de 35 mil quilômetros quadrados frutas são produzidas em hectares e mais hectares de culturas que não são originárias daquela região, o que só é possível em razão de um avanço tecnológico que chegou nos anos 1970: a captação das águas do rio para irrigação.

 

Lira (à esq.) e Miranda: ganhos produtivos devido aos projetos
de irrigação (Foto: Rafael Vieira/CNA)

A irrigação é projeto da Companhia dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), órgão público que encontrou nesta tecnologia a melhor forma de promover o desenvolvimento agrícola da região. É ela que permite levar água a um local de clima semiárido de baixos níveis pluviométricos anuais.

- Se tivéssemos que resumir a transformação da região, ela está lastreada em ciência e tecnologia, pois estamos em um ambiente extremamente desafiador - diz o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb), Humberto Miranda.

A água é captada por meio da pressurização levada a um canal principal que abastece uma rede de canais secundários. A irrigação chega às plantas, por sua vez, por gotejamento. Em alguns casos, realiza-se a irrigação por aspersão, no entanto, neste modelo o consumo da água e a perda por evaporação são maiores. Um dos distritos de irrigação, Senador Nilo Peçanha, compreende os municípios de Casa Nova, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco, na região do submédio São Francisco. Irriga uma área total de 18,6 mil hectares a partir do Lago de Sobradinho.

Mangas e uvas

Foi a partir dos anos 1970 que investidores e empresários do Sul, Sudeste, do Japão e do próprio Nordeste passaram a apostar majoritariamente em duas culturas de frutas que não pertencem a este cenário: mangas e uvas florescem em um ambiente cercado por cactos, bromélias, umbuzeiros e carnaúbas, entre outras espécies da flora típica da caatinga.

A região conhecida como Vale do Rio São Francisco compreende quatro municípios de Pernambuco e quatro da Bahia. Entre as cidades pernambucanas, estão Santa Maria da Boa Vista, Lagoa Grande, Orocó e Petrolina. Do lado baiano, estão Juazeiro, Casa Nova, Sobradinho e Curaçá. Esses são apenas dois dos cinco estados pelos quais passa o São Francisco. Ele nasce em Minas Gerais e deságua no Oceano Atlântico após abastecer também Sergipe e Alagoas.

 

Mangas: 90% da produção local é dedicada à exportação (Foto: Rafael Vieira/CNA)

Segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em 2022 os municípios de Juazeiro e Petrolina produziram aproximadamente 600 mil toneladas de manga e 300 mil toneladas de uvas, principalmente uvas de mesa, embora no semiárido também se produzam uvas viníferas.

Do total produzido, são exportados 90% da manga e 98% das uvas. Nos dois casos, melhoramento genéticos desenvolvidos nos Estados Unidos resultaram em produtos mais doces e com características que agradam ao consumidor, como as variedades de manga tommy, kent, keitt e palmer e, de uvas, como a vitória. Manga e uvas são culturas predominantes na região, dizem os produtores, porque se adaptaram melhor, mas há também plantações de limão, pera, melancia e goiaba, entre outros. Da área total plantada no Vale do Rio São Francisco, 40% são de mangas, 20% de uvas de mesa e 40% das outras culturas.

Do Rio São Francisco para os Emirados

A exportação é resultado de um longo processo produtivo só possível pela captação da água do rio para irrigar o semiárido. E traz resultados: 95% das exportações são realizadas por via marítima a partir dos portos de Salvador, na Bahia, e Pecém, no Ceará. Os 5% restantes são enviados por via área principalmente pelos aeroportos de Viracopos, em Campinas, e Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo. Esta é a principal via que leva as frutas do São Francisco para os países árabes.

Atualmente, o principal cliente das uvas e, principalmente, mangas nos países do Oriente Médio e Norte da África são os Emirados Árabes Unidos: segundo a CNA, em 2023 o Brasil exportou US$ 572,1 mil em mangas frescas aos Emirados, sendo US$ 317,4 mil pelos estados de Bahia e Pernambuco. As exportações de uvas frescas do Brasil para o país somaram US$ 672,3 mil, dos quais US$ 150,9 mil foram a partir destes estados.

O avião é a principal forma de envio para os países árabes porque o tempo de trânsito de navio se aproxima dos 40 dias, tempo que afeta a qualidade da manga. Há também exportações indiretas a partir de entrepostos comerciais, como o porto de Roterdã, na Holanda. Egito também é um mercado que recebe as frutas brasileiras, porém em menor quantidade.

- Eventualmente recebemos no aeroporto de Petrolina um voo cargueiro que vem de São Paulo e pára aqui. Quando isso ocorre, conseguimos embarcar frutas a partir de Petrolina, mas não é regular - diz o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina, Jailson Lira.

Do Japão para os Emirados a partir do sertão

Empresário nascido no país asiático exporta uvas de mesa produzidas no semiárido para diversos destinos, inclusive os Emirados Árabes Unidos. Confira a história de Suemi Koshiyama na segunda reportagem da ANBA sobre as frutas exportadas a partir do Vale do São Francisco

 

Suemi Koshiyama: Empresário japonês investiu na
fruticultura do Vale do São Francisco
(Foto: Rafael Vieira/CNA)

Suemi Koshiyama nasceu no Japão e chegou com a família ao Brasil em 1960, aos cinco anos. Já como produtor rural, deixou Mogi das Cruzes, em São Paulo, em 1983 e, em parceria com a Cooperativa Agrícola de Cotia, outra cidade de São Paulo, instalou-se no Vale do Rio São Francisco. Trocou a energia elétrica da capital paulista pela lamparina do sertão em uma região que começava a crescer como produtora de frutas graças a incentivos da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf).

A “aposta” de Koshiyama se tornaria a Special Fruit, uma das empresas do Vale do Rio São Francisco que produz e exporta mangas, uvas e melões.

- Todos os dias do ano colhemos uva fresca. Isso só acontece aqui, no Vale do São Francisco. É um privilégio de clima e da água do Rio São Francisco. Com isso, Juazeiro e Petrolina se tornaram os maiores exportadores de uva e manga do Brasil, para o mundo todo - diz o empresário.

Assim como as uvas, na região do Vale do Rio São Francisco as mangas podem ser colhidas o ano inteiro.

A empresa tem 1.100 hectares de plantações de árvores frutíferas em cinco fazendas. Em 2023, faturou R$ 300 milhões, dos quais 70% procedentes da exportação para 36 países. De acordo com o gerente de Exportações, Joney Rodrigues, 39% do que a Special Fruit exporta vai para Europa e 20% para América do Norte.

Para Oriente Médio seguem 9% das vendas, que estão em crescimento. A empresa tem nos Emirados Árabes Unidos o principal cliente. Koshiyama diz que a maior parte dos embarques aos Emirados é feita por grandes redes de supermercados e que isso é reflexo da pandemia, quando apenas os supermercados estavam abertos e passaram a fazer as compras diretamente no produtor. Essa mudança no perfil do “comprador” também obrigou as empresas a ampliar seus processos produtivos e as certificações.

A Special Fruit, assim como outras produtoras de mangas do Brasil, enfrenta, contudo, concorrência de quem está mais perto e de quem produz ainda mais do que o Brasil. O Peru, por exemplo, é um grande competidor no mercado de mangas no fim do ano, quando sua safra chega à Europa a preços baixos. A própria Europa produz manga. A colheita espanhola de manga, por exemplo, abastece o continente durante parte do ano. O Brasil, embora tenha disponibilidade das frutas todos os meses, precisa encontrar as oportunidades de mercado para vender.

Concorrência para chegar aos Emirados

Para os árabes, explica Rodrigues, a “janela” de exportação ideal é nos meses de agosto, setembro e outubro, quando grandes produtores da África, como Senegal e Costa do Marfim, já não estão mais colhendo mangas.

Outro desafio é o tempo de transporte. Por via marítima, diz Rodrigues, é praticamente inviável exportar as mangas para o Oriente Médio porque as frutas podem estragar antes do prazo de entrega ao cliente, entre 35 dias e 40 dias a partir do Brasil. As uvas são um pouco mais resistentes, pois, diferentemente das mangas, param de amadurecer assim que são colhidas.

- O trânsito marítimo para o Oriente Médio é de 35 a 40 dias. Para manga é inviável, para uva ainda chega no limite. Os mercados de alto valor, principalmente para exportação de manga são [por via] aérea. É esse [meio de envio] que perseguimos para aumentar exportação para Oriente Médio e Ásia - afirma Rodrigues.

*É  Jornalista com passagens por jornal diário e assessoria de comunicação, é mestre pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e pós-graduado em Comunicação Empresarial pela Universidade Metodista de São Paulo.

O jornalista viajou a convite da CNA

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