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ESPECIAL ][ Mariangela Hungria: a Nobel brasileira do solo

ESPECIAL ][ Mariangela Hungria: a Nobel brasileira do solo

Data de Publicação: 14 de janeiro de 2026 11:30:00 "Desde criança, queria ser cientista para produzir alimentos e garantir que ninguém passasse fome", revela a pesquisadora da Embrapa.

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RESUMO

Mariangela Hungria, ícone da Embrapa e Nobel da Agricultura, revolucionou o solo com bioinsumos e fixação de nitrogênio. Em 43 anos de carreira, provou que a ciência brasileira garante segurança alimentar e sustentabilidade, elevando o Brasil à liderança mundial em tecnologias biológicas.

Da redação

Em entrevista especial, a CropLife Brasil, Mariangela Hungria, primeira brasileira a receber o Prêmio Mundial da Alimentação (2025), descreve sua trajetória de cientista e pesquisadora da Embrapa. Cerrado Rural Agro condensou este materreial de suma importância para a Ciência e o agronegócio brasileiro. A cientista começou em Itapetininga (SP), sob a influência de sua avó materna. Farmacêutica e professora, a avó despertou nela a curiosidade científica com experiências simples e a leitura do livro “Caçadores de Micróbios”. Aos 8 anos, Mariangela já sabia que queria ser microbiologista para combater a fome, motivada pelo choque ao ver pessoas em situação de vulnerabilidade. 

Em 2025, Mariangela contribuiu para diversas visitas de
pesquisadores e lideranças globais nos cultivos da Embrapa
na AgriZone, durante a COP30 (Foto: Saulo Coelho/ Embrapa)
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Mesmo sendo a primeira aluna de sua escola, contrariou as expectativas de seguir medicina para cursar Agronomia na Esalq-USP, uma profissão que, na época, era considerada de menor prestígio e marcada pelo machismo. Durante a graduação, enfrentou o desafio de sustentar duas filhas — uma delas com necessidades especiais — trabalhando com traduções e datilografia para financiar seus estudos. Seu interesse por biológicos surgiu em uma era dominada pelos fertilizantes químicos da Revolução Verde, levando-a a um estágio decisivo no CENA sobre fixação biológica de nitrogênio.

A cientista brasileira esteve na COP30, Conferência do Clima da
ONU, sediada em 2025 em Belém-PA. Lá, exibiu  as raízes de soja
e trabalhos da Embrapa (Foto: Saulo Coelho/ Embrapa)
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O legado de Johanna Döbereiner e a revolução na soja

O caminho de Mariangela cruzou-se com o da lendária Dra. Johanna Döbereiner, que a convidou para o doutorado na UFRRJ e a contratou para a Embrapa em 1982. Johanna foi sua mentora, ignorando as limitações que muitos homens veriam em uma mãe jovem e focando em sua dedicação científica. Após um pós-doutorado nos EUA, Mariangela mudou-se para Londrina em 1991 para atuar na Embrapa Soja. Ali, começou do zero, sem laboratório ou equipe, mas com a convicção de que os bioinsumos funcionariam para grandes rendimentos e em larga escala.

Seu trabalho provou que a inoculação anual de bactérias garantia um aumento de 8% na produtividade da soja. Em mais de 500 experimentos, ela demonstrou que a tecnologia biológica pode substituir integralmente os fertilizantes nitrogenados químicos. O reconhecimento global veio com a validação dessa ciência, especialmente durante a pandemia e a guerra na Ucrânia, quando a crise de insumos importados (o Brasil importa 85% do que usa) forçou os agricultores a adotarem os biológicos, confirmando o que Mariangela defendia há décadas.

Entre diversos reconhecimento, em 2022 a pesquisadora
recebeu o prêmio “Vida e Obra”, da Fundação Bunge,
pela sua trajetória e contribuições (Foto: PFB)
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Segurança alimentar e a soberania da pesquisa pública

Como coordenadora de segurança alimentar na Academia Brasileira de Ciências, Mariangela lançou obras que mostram que a produção de alimentos é apenas parte de uma ciência complexa e interdisciplinar. Ela celebra a saída do Brasil do Mapa da Fome em 2024, mas alerta para os gargalos: 73% dos produtores de soja são pequenos e ainda não têm pleno acesso aos inoculantes. Para ela, o futuro do setor exige investimento em pesquisa para evitar desinformação e garantir produtos de qualidade que não afetem a biodiversidade.

Sobre a Embrapa, a pesquisadora defende a importância de uma empresa pública que foca em áreas ignoradas pelo setor privado, como o melhoramento de soja convencional e culturas regionais. Com um retorno social de 25 reais para cada 1 real investido, Mariangela vê a pesquisa agropecuária como uma questão de soberania nacional. Aos 43 anos de casa, ela continua projetando o avanço da tecnologia agrícola, com potencial para que os bioinsumos saltem de 15% para 50% de uso no campo até 2030.

 

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