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TRAVESSIAS LITERÁRIAS ][ Tom Lyra reflete sobre livro que faz do Araguaia caminho da alma

TRAVESSIAS LITERÁRIAS ][ Tom Lyra reflete sobre livro que faz do Araguaia caminho da alma

Data de Publicação: 5 de maio de 2026 18:51:00 Escritor revela como transformou o místico rio tocantinense e a Ilha do Bananal em palco de profunda reflexão existencial.

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Resumo

Inspirado por crises existenciais e pela busca por autoconhecimento, o livro de quase 500 páginas de Tom Lyra eleva o Rio Araguaia e a Ilha do Bananal a símbolos de travessia espiritual. Em conversa com este também autor, o escritor detalha as inspirações e o resgate da cultura Karajá.

 

 

Por Antônio Oliveira

Muitas vezes nos pegamos pensando sobre quem somos, o que fazemos aqui e qual é o nosso futuro, mergulhando em profundas crises existenciais. Nesses momentos, muitos se apegam a Deus, ainda que sem compreender plenamente a Ele ou a si mesmos. Outros buscam amparo na psicologia e no autoconhecimento. Há também aqueles que, tendo condições financeiras, buscam como oportunidade de reflexão o Caminho de Santiago de Compostela ou as alturas do Himalaia — duas das jornadas mais profundas e transformadoras que um ser humano pode realizar a pé. Embora ambas lidem com a superação de limites e com o silêncio, elas propõem diálogos existenciais e geográficos completamente distintos.

Tom Lyra: "Na subida travessia do Araguaia"
(Fotos: Secom TO e Antônio Oliveira. Montagem: CRA)
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No Tocantins, o empresário, político – atualmente preside a Agência Tocantinense de Regulação - e escritor Tom Lyra, em um desses momentos de vazio existencial e na busca por autoconhecimento e burilamento, fez do majestoso e místico Rio Araguaia o seu próprio Caminho de Santiago de Compostela ou suas trilhas nas alturas do Monte Everest. Ele partiu ao "encontro com o sábio xamã Karajá, ‘conhecedor de muitos segredos do céu e da terra’", "que morava na aldeia Fontoura, na Ilha do Bananal". No caminho, teve um Canoeiro como seu "anjo da guarda de fora" e uma "mulher com os olhos da cor de jabuticaba" como guardiã de dentro.

Com quase 500 páginas, em edição independente de 2024 e publicado no ano passado, o livro conta com arte-final da Play Design e uma bela capa. É uma obra linda que nos chama à reflexão... Descrever mais sobre ela seria cometer a indelicadeza do spoiler. Só recomendo que leia; trata-se de um momento sensível de um homem refletido na literatura e que nos traz uma bela mensagem final.

Fiz uma breve entrevista com o autor — a quem tenho muito respeito, estima e consideração, sentimentos que vejo como recíprocos —, que também não dá spoilers, mas me ajuda na missão de acender uma chama de curiosidade sobre esta obra para os leitores desta minha modesta resenha.

"O Araguaia deixa de ser apenas geografia para se tornar o espelho místico de nossas próprias travessias internas."

Tom Lyra – O que me motivou a escrever este livro? A motivação nasce de uma inquietação antiga: compreender as travessias humanas, aquelas que não se limitam ao espaço físico, mas que acontecem dentro de nós.

O Rio Araguaia, nesse contexto, deixa de ser apenas geografia e passa a ser símbolo. Escrever este livro foi uma forma de dar voz às experiências que moldam o homem, especialmente nos momentos em que ele é confrontado com seus próprios limites, medos e verdades.

Também me moveu o desejo de dar visibilidade às culturas que habitam esse universo, em especial aos povos originários como os Karajá, guardiões de saberes ancestrais profundamente conectados à natureza e ao espírito do rio. A Ilha do Bananal, com sua grandeza singular, surge como cenário vivo dessa narrativa — não apenas como paisagem, mas como entidade que respira história, identidade e pertencimento.

 

Antônio Oliveira – Qual é a porcentagem de realidade presente na obra?

Tom Lyra – Diria que a obra é profundamente ancorada na realidade, ainda que não se apresente como um relato literal. Há vivências, observações e sentimentos reais em praticamente toda a narrativa — algo em torno de 70% a 80%. O restante é trabalhado pela sensibilidade literária, que organiza, amplia e, por vezes, simboliza essas experiências para alcançar uma verdade ainda mais essencial.

Nesse contexto, a própria geografia do Araguaia — suas curvas, suas cheias e vazantes, suas praias e ilhas — compõe uma realidade viva que influencia diretamente a construção da narrativa. Da mesma forma, a vida ribeirinha que vivi na minha infância e pré-adolescência, com suas rotinas, culinária, artesanato, desafios e sabedorias, está retratada com respeito e fidelidade, revelando um modo de existir que resiste ao tempo.

 

Com quase 500 páginas, a obra é um
convite à reflexão (Foto: Antônio Oliveira)
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Antônio Oliveira – Qual foi a sua maior inspiração durante o processo de escrita?

Tom Lyra – Minha maior inspiração foi o próprio homem em estado de travessia — aquele que precisa seguir, mesmo sem todas as respostas. Além disso, o Tocantins, o Araguaia, suas paisagens, suas histórias e seu povo foram fontes permanentes de energia criativa. Há também uma inspiração silenciosa que vem das perdas, dos reencontros e das transformações que a vida inevitavelmente nos impõe.

As experiências vividas junto a figuras simbólicas, como a de um xamã, também marcaram profundamente o processo criativo. Esse contato com o sagrado, com o invisível e com as dimensões mais sutis da existência trouxe uma camada mística à obra, que dialoga com os elementos naturais e com a espiritualidade presente no cotidiano dos povos do Araguaia.

 

Tom Lyra – Meus objetivos ao externar esta obra? Mais do que contar uma história, meu objetivo foi provocar reflexão. Quis oferecer ao leitor um espelho — às vezes sereno, às vezes inquietante — no qual ele pudesse reconhecer suas próprias travessias. Se ao final da leitura alguém se sentir mais consciente de si, mais preparado para enfrentar seus próprios rios ou até mais sensível à jornada do outro, então a obra terá cumprido seu propósito.

Ao mesmo tempo, busquei resgatar e valorizar a importância histórica e geográfica do Rio Araguaia, que foi, ao longo do tempo, uma verdadeira artéria de ligação entre o Norte e o Sul do país, impulsionando as grandes navegações interiores e contribuindo para o surgimento de diversas cidades.

Há também um compromisso com o futuro: despertar no leitor a consciência sobre a preservação desse patrimônio natural e cultural. O Araguaia não pertence apenas ao presente — ele é herança viva das gerações futuras, e sua continuidade depende do respeito, do cuidado e da compreensão de sua grandeza.

#Publicação simultânea com o blog da livraria virtual Cerrado Editorial.

 

Tom Lyra, Rio Araguaia, Literatura do Tocantins, Ilha do Bananal, Povo Karajá, Autoconhecimento.

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