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O milionário comércio ilegal de pescados na Amazônia
Data de Publicação: 18 de julho de 2022 19:42:00 Enquanto se pagam R$ 5 reais por quilo de carne de pirarucu na região, Peru e Colômbia pagam R$ 15, para consumo interno ou exportação – sem impostos e sem custos de cultivo. Tartarugas são vendidas por até R$ 1 mil #pesca ilegal, #comércio ilegal do pirarucu, #tráfico na Amazônia, #vale do javari
*Por Antônio Oliveira
O assassinato do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira, no Vale do Javari, no Amazonas, revelou, com mais clareza, o rico mercado clandestino de carne de pirarucu, espécie nativa ainda muito farta nos rios amazônicos. Especialistas consultados pelo jornal O GLOBO, informaram há uma rede de relações entre pescadores ilegais e traficantes colombianos e peruanos estabelecida há décadas na região.
Ainda conforme esses especialistas, os investimentos na produção de pescados são feito para lavar dinheiro, mas também para esconder o tráfico de cocaína.
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| Pirarucu de manejo sustentável legal na Amazônica (Foto: Divulgação) |
Ainda conforme O GLOBO, o pirarucu, é um dos peixes mais disputados no comércio de carnes ilegais da região – junto com piracatingas, tracajás, pitiús (espécie de tartaruga), tartarugas gigantes, peixes ornamentais, pacas, macacos e antas.
– Cada tonelada de carne de caça e pescado, todas juntas, rende entre R$ 70 mil e R$ 100 mil – disse, ao O GLOBO, Beto Marubo, liderança da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), para a qual Bruno Pereira trabalhava antes de ser morto.
Conforme Guillermo Estupiñán, especialista no combate ao tráfico de animais silvestres da Wildlife Conservation Society (WCS-Brasil), em depoimento ao jornal do Grupo Globo, essas carnes, na maior parte das vezes, é vendida no Peru e na Colômbia, ao preço de R$ 15, enquanto no Brasil o pescador costuma receber R$ 5 pelo quilo do pirarucu.
Conforme o IBAMA, 1.173 espécies estão ameaçadas de extinção no país, das quais 310 pertencem à categoria dos peixes continentais, a que mais corre risco de desaparecer, como costuma acontecer no Vale do Javari.
Em fala a O GLOBO, o delegado federal Alexandre Saraiva, ex-superintendente da PF em Roraima e no Amazonas, contou que a região do Vale do Javari é a Rota do Solimões, onde a organização que tem as armas mais pesadas é o tráfico. “Então, é natural que o tráfico domine todas as outras categorias criminosas – disse.
Ainda conforme ele, o traficante autoriza a pesca ilegal conquanto que o pescador dê em troca uma parte do seu lucro. “O que o traficante nunca vai deixar acontecer é alguém ganhe dinheiro na área dele sem pagar nada.”
O GLOBO apurou ainda que o pescador Pelado, acusado de assassinar os dois ambientalistas, costumava obter itens como gelo, sal e gasolina de um vendedor apelidado de "Colômbia", que mantém uma loja flutuante no povoado peruano de Islândia, às margens do rio Javari.
- Segundo um morador de Atalaia do Norte, que preferiu não se identificar por temer represálias, o material era usado por Pelado e sua quadrilha que, em troca, forneciam os pescados como pagamento e embolsavam a diferença -, informou O GLOBO..
– Por isso o pescador continua vendendo peixe ilegal: o legal não tem um bom preço. A gente sabe que muito dessa produção vai para Peru e Colômbia. Pagam mais porque o pirarucu não é muito abundante por lá. Há um fluxo intenso. E o pescador fica muito mais motivado a vender fora do que dentro do Brasil – afirma Estupiñán.
Segundo o pesquisador, na época em que foram feitos os primeiros registros da pesca predatória ilegal da piracatinga no Amazonas, no início dos anos 2000, quase todo o dinheiro que entrava no Brasil para a compra de peixes ilegais vinha da Colômbia.
– Havia praticamente só dinheiro colombiano que entrava aqui para comprar pirarucu – disse ele.
A pesca ilegal é consequência da falta de presença de órgãos de controle naquela região.
Fornecidas às "bodegas" - os frigoríficos no lado colombiano -, as carnes são transportadas para cidades como Bogotá, para consumo local e também para exportação, e vez por outra acabam misturadas à cocaína.
– A madeira, assim como a pesca, é usada pelo tráfico como mero invólucro. Tinha muita apreensão de pescado com droga no meio, era comum. Já apreendi cocaína dentro de pirarucu – afirmou o delegado Saraiva, ao relembrar a época em que era lotado em Manaus.
– Não se pode subestimar a lucratividade da pesca e da madeira, são indústrias extremamente rendosas, negócios fortes que dão muito dinheiro.
Numa das operações que liderou, conforme O GLOBO, Saraiva conseguiu identificar uma rede de pescadores que traficava tartarugas de 60 quilos, vendidas a R$ 1 000 cada. Havia pescadores que enjaulavam 500 por semana, segundo delegado.
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Até a dona de um restaurante famoso em Manaus foi presa, apurou o jornal.
*Com informações do jornal Extra, do Grupo Globo
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