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ENTREVISTA ][ “O agro depende de ciência, não de posições emocionais”, afirma Hoana Almeida, presidente do Sindag

ENTREVISTA ][ “O agro depende de ciência, não de posições emocionais”, afirma Hoana Almeida, presidente do Sindag

Data de Publicação: 22 de maio de 2026 20:18:00 Primeira mulher a presidir o Sindag, Hoana Almeida Santos analisa expansão da frota nacional, segurança jurídica, uso de etanol e a chegada de aviões autônomos.

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Resumo

Em entrevista exclusiva, a presidente do Sindag, Hoana Almeida Santos, aborda a modernização da frota aeroagrícola do país, estratégias contra barreiras regulatórias e o crescimento sustentável do setor na fronteira do MATOPIBA. 

 

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Por Antônio Oliveira

Em entrevista exclusiva ao portal Cerrado Rural Agro, a presidente do Sindag, Hoana Almeida Santos, destaca a consolidação do Brasil como dono de uma das maiores frotas aeroagrícolas do mundo, impulsionada pelo uso estratégico de biocombustíveis e pela expansão tecnológica na fronteira produtiva do MATOPIBA. Primeira mulher a liderar a entidade, ela analisa os desafios de segurança jurídica enfrentados pelo setor ante as restrições regulatórias locais e projeta a convivência harmoniosa entre sistemas tripulados e aeronaves autônomas de última geração no campo.

Segue a entrevista

"O Brasil possui características agrícolas
muito específicas" (Foto: Castor Becker)
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Antônio Oliveira – Presidente, a sua trajetória na aviação agrícola começou em 2008 no Tocantins sob uma forte circunstância pessoal e, em 2023, a senhora se tornou a primeira mulher a presidir o Sindag, sendo reeleita em 2025. Como foi romper as barreiras de um setor tradicionalmente masculino e conservador, e de que forma a criação da Amag (Associação das Mulheres da Aviação Agrícola) tem ajudado a pavimentar esse mesmo caminho para novas lideranças femininas?

Hoana Almeida Santos – Minha trajetória começou em um momento muito desafiador da minha vida pessoal, quando precisei assumir responsabilidades dentro da empresa e do setor aeroagrícola em um ambiente predominantemente masculino. No início, precisei provar diariamente minha capacidade técnica, minha resiliência e minha competência na gestão. Com o tempo, percebi que o maior caminho para romper barreiras era através do trabalho sério, da transparência e da construção de relações de confiança.

Ser a primeira mulher presidente do Sindag representa não apenas uma conquista pessoal, mas também um marco importante para o setor. Isso demonstra que a aviação agrícola está evoluindo e abrindo espaço para lideranças mais diversas.

A criação da AMAG nasceu justamente dessa necessidade de fortalecer a presença feminina no segmento, criando uma rede de apoio, incentivo e capacitação. Hoje, vemos mais mulheres ocupando espaços na gestão, na operação, na manutenção, na engenharia e também na representação institucional. Nosso objetivo é mostrar que competência não tem gênero e que o setor ganha muito quando amplia sua diversidade.

 

Antônio Oliveira – O seu modelo de gestão é muito reconhecido pelo foco no diálogo, na transparência e na aproximação com a sociedade. Diante de um cenário frequentemente exposto a polarizações e preconceitos ideológicos, quais têm sido as principais estratégias do Sindag para desmistificar a aviação agrícola e construir uma imagem pública baseada em tecnologia e segurança operacional?

Hoana Almeida Santos – A principal estratégia tem sido aproximar o setor da sociedade através da informação técnica, da transparência e do diálogo aberto. Existe ainda muito desconhecimento sobre a aviação agrícola, e isso acaba alimentando preconceitos e narrativas distorcidas.

Hoje mostramos que a aviação agrícola é uma ferramenta de alta tecnologia, extremamente regulada e fundamental para a produção de alimentos, para o controle de pragas, para o combate a incêndios e até para ações de saúde pública. Trabalhamos constantemente para apresentar dados, pesquisas científicas e indicadores de segurança operacional que comprovam a evolução do setor.

Também temos investido fortemente na aproximação com universidades, órgãos reguladores, imprensa e entidades do agro. Quando a sociedade conhece o nível de tecnologia embutida nas aeronaves, os sistemas de precisão, o treinamento dos pilotos e os protocolos de segurança, ela passa a enxergar a atividade de forma muito mais técnica e menos ideológica.

 

Antônio Oliveira – Em seu segundo mandato, a busca por segurança jurídica e a aproximação com a academia e com o Instituto Pensar Agropecuária (IPA) foram colocadas como prioridades. Na prática, como essas alianças políticas e científicas podem blindar o setor contra os constantes desafios regulatórios que o segmento enfrenta no país?

Hoana Almeida Santos – A segurança jurídica hoje é uma das pautas mais importantes para o setor. A aviação agrícola depende de previsibilidade regulatória para continuar investindo em tecnologia, renovação de frota e qualificação profissional.

"Ser a primeira mulher na presidência do Sindag mostra que a aviação agrícola está abrindo espaço para lideranças mais diversas. Competência não tem gênero."

A aproximação com a academia e com o Instituto Pensar Agropecuária fortalece justamente a construção de decisões baseadas em ciência e evidências técnicas. Quando trabalhamos ao lado de universidades, centros de pesquisa e entidades técnicas, conseguimos demonstrar de forma objetiva os impactos econômicos, ambientais e operacionais das decisões regulatórias.

Além disso, a articulação política em Brasília é fundamental para que o setor tenha voz ativa nas discussões sobre legislação, tributação e regulamentação. O Sindag tem buscado atuar de forma muito institucional, técnica e propositiva, defendendo sempre o equilíbrio entre segurança operacional, sustentabilidade e competitividade.

 

O Brasil possui uma das maiores e mais modernas
frotas aeroagrícolas do mundo (Foto: Castor Becker)
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Antônio Oliveira – Os dados de 2025 mostram que o Brasil atingiu a marca de 2.866 aeronaves agrícolas e, mais do que isso, houve uma migração líquida de 119 aeronaves do modelo privado (TPP) para o de prestação de serviços especializados (SAE). Como o Sindag avalia esse movimento? Ele reflete uma busca do produtor por maior eficiência técnica ou é um reflexo do peso das exigências regulatórias sobre o operador privado?

Hoana Almeida Santos – Esse movimento reflete um pouco dos dois fatores. Existe, sim, uma busca crescente do produtor rural por empresas especializadas, que oferecem maior estrutura operacional, equipes treinadas, gestão técnica e capacidade de atendimento em larga escala.

Ao mesmo tempo, também observamos que o ambiente regulatório vem se tornando mais complexo, especialmente para operadores privados. Muitas vezes, o produtor entende que terceirizar a operação para empresas SAE reduz riscos operacionais, jurídicos e administrativos.

Isso demonstra também a maturidade do mercado aeroagrícola brasileiro. Hoje, muitas empresas oferecem um nível elevado de profissionalização, tecnologia e segurança operacional, o que acaba atraindo produtores que buscam eficiência, rastreabilidade e melhor gestão das aplicações.

 

Antônio Oliveira – A frota brasileira apresenta um equilíbrio quase exato entre aeronaves nacionais e importadas, com destaque histórico para os modelos da Embraer movidos a etanol e o crescimento dos turboélices da Air Tractor. Como essa configuração de frota posiciona o Brasil economicamente no mercado internacional e de que forma o combustível renovável (etanol) contribui para as metas de sustentabilidade do setor?

Hoana Almeida Santos – O Brasil possui uma das maiores e mais modernas frotas aeroagrícolas do mundo, e isso posiciona o país como referência internacional em tecnologia de aplicação aérea.

Os modelos nacionais da Embraer movidos a etanol representam um diferencial extremamente importante. O uso de combustível renovável reduz significativamente as emissões de carbono e reforça o compromisso do setor com práticas mais substituíveis.

Ao mesmo tempo, o crescimento das aeronaves turboélice amplia a capacidade operacional, especialmente em grandes áreas agrícolas. Essa combinação entre tecnologia nacional, eficiência operacional e sustentabilidade fortalece a competitividade do Brasil no cenário global e demonstra que a aviação agrícola pode ser aliada da produtividade e também das metas ambientais.

 

Antônio Oliveira – O registro do Pyka Pelican em 2025 marcou a entrada do primeiro avião agrícola autônomo no ambiente regulado brasileiro. Como o setor projeta a convivência de sistemas tripulados e autônomos a médio prazo? Esse avanço tecnológico deve ser visto como um complemento operacional ou como uma força disruptiva que mudará o perfil do piloto agrícola tradicional?

Hoana Almeida Santos – A tecnologia autônoma é uma realidade sem volta, e o setor acompanha isso com muita atenção e responsabilidade. Nós entendemos que, no médio prazo, os sistemas autônomos e tripulados irão coexistir de forma complementar.

O Brasil possui características agrícolas muito específicas, com áreas extensas, diferentes culturas e desafios logísticos complexos. Em muitas situações, as aeronaves tripuladas continuarão sendo essenciais pela capacidade operacional, autonomia e produtividade.

Por outro lado, os sistemas autônomos e drones tendem a ganhar espaço em operações específicas, aplicações localizadas e atividades complementares. O mais importante é garantir que essa integração aconteça com segurança operacional, regulamentação clara e qualificação adequada dos profissionais.

O perfil do piloto agrícola certamente evoluirá cada vez mais para um profissional altamente tecnológico, integrado a sistemas digitais, monitoramento de dados e operações inteligentes.

 

Antônio Oliveira – Registra-se, atualmente, uma grave superposição de regulamentos, onde municípios e estados tentam proibir a atividade aeroagrícola — competência que cabe exclusivamente à União —, além de episódios de “bondes de fiscalização” que geram tensão no setor. Como o Sindag tem atuado juridicamente para conter essa ingerência local e combater o impacto negativo que essas ações causam na opinião pública?

Hoana Almeida Santos – O Sindag atua de forma muito firme na defesa da legalidade e da segurança jurídica do setor. A aviação agrícola é uma atividade regulada em âmbito federal, envolvendo órgãos como ANAC, MAPA e DECEA, e entendemos que não pode haver sobreposição de competências que gere insegurança operacional e jurídica.

Quando surgem iniciativas municipais ou estaduais que extrapolam essas competências, buscamos atuar por meio do diálogo institucional, do esclarecimento técnico e, quando necessário, também pelas vias jurídicas.

"A aviação agrícola depende de decisões técnicas e científicas, e não de posicionamentos ideológicos ou emocionais que alimentam mitos."

Além disso, temos trabalhado para combater o impacto negativo dessas ações na opinião pública através de informação qualificada. Muitas vezes, a sociedade recebe versões distorcidas sobre a atividade, sem conhecer os rígidos protocolos técnicos e ambientais existentes no setor.

Nosso foco é sempre defender uma regulamentação técnica, baseada em ciência, segurança operacional e equilíbrio jurídico.

 

Antônio Oliveira – A proibição monocrática do Glifosato no Maranhão e a tramitação de diversos Projetos de Lei restritivos no Congresso Federal são apontados como ameaças reais à sobrevivência do setor. Qual tem sido o peso do trabalho de articulação política em Brasília para demonstrar aos parlamentares e magistrados a falta de amparo científico nessas restrições e o risco que elas trazem para o abastecimento de alimentos?

Hoana Almeida Santos – A articulação institucional em Brasília tem sido absolutamente fundamental. O setor aeroagrícola depende de decisões técnicas e científicas, e não de posicionamentos ideológicos ou emocionais.

O Sindag atua constantemente junto ao Congresso Nacional, órgãos reguladores, entidades do agro e frentes parlamentares para apresentar dados técnicos, estudos científicos e os impactos econômicos e sociais dessas medidas restritivas.

É importante lembrar que a aviação agrícola faz parte da cadeia de produção de alimentos do país. Restrições sem base científica podem comprometer a produtividade, elevar custos, afetar o controle fitossanitário e impactar diretamente o abastecimento de alimentos. Além de representarem um precedente perigoso para a sociedade, à medida que retroalimentam mitos.

Nosso trabalho é justamente mostrar que tecnologia, ciência, sustentabilidade e produção podem caminhar juntas.

 

Antônio Oliveira – Olhando para dentro do setor, são citados problemas como a concorrência predatória e falhas técnicas por falta de capacitação, que geram deriva e o descrédito da atividade. Como programas como o CAS e as pesquisas conjuntas com a Embrapa têm funcionado para corrigir essa “lição de casa” e garantir que 100% dos operadores atuem com alta performance?

Hoana Almeida Santos – O setor entende que evolução também exige autocrítica e melhoria contínua. O CAS é uma ferramenta extremamente importante porque estabelece padrões elevados de qualidade, segurança operacional, sustentabilidade e boas práticas.

Além disso, as parcerias com a Embrapa e universidades – como o Núcleo de Estudos em Aviação Agrícola (Neaagri) da Universidade de Brasília (UnB), ajudam a desenvolver pesquisas voltadas para tecnologia de aplicação, redução de deriva, eficiência operacional e sustentabilidade ambiental.

Hoje existe um esforço muito grande do setor em ampliar a capacitação, profissionalização e padronização técnica. A maioria esmagadora dos operadores já trabalha com alto nível tecnológico e operacional, mas seguimos buscando evolução constante, porque entendemos que a imagem e a credibilidade do setor dependem diretamente da excelência das operações.

 

Hoana Almeida, presidente do Sindag (Foto: Castor Becker)
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Antônio Oliveira – Como a senhora analisa o panorama atual da aviação agrícola na região do MATOPIBA e quais são as suas expectativas de crescimento para o setor nessa fronteira agrícola?

Hoana Almeida Santos – O MATOPIBA é hoje uma das regiões mais estratégicas para o crescimento da aviação agrícola brasileira. O avanço da produção de soja, milho, algodão e outras culturas vem ampliando significativamente a demanda por tecnologia de aplicação aérea.

É uma região que combina expansão agrícola, grandes áreas produtivas e necessidade crescente de eficiência operacional. Isso torna a aviação agrícola uma ferramenta extremamente importante para garantir produtividade, agilidade e controle fitossanitário.

As perspectivas de crescimento são muito positivas, tanto para aeronaves tripuladas quanto para novas tecnologias, como drones e sistemas inteligentes de aplicação. A tendência é que o setor continue crescendo de forma integrada ao desenvolvimento agrícola da região.

 

Antônio Oliveira – Por fim, presidente, tenho observado no Projeto de Irrigação Rio Formoso, no Tocantins — onde há uma forte presença da fruticultura, produção de sementes, rizicultura, cultivo de feijão etc —, cervos, garças e diversas outras aves daquele bioma convivendo harmoniosamente entre os cultivos e as colheitas. Diante dessa realidade, como a senhora analisa a relação de sustentabilidade entre a aviação agrícola e a preservação do meio ambiente?

Hoana Almeida Santos – Esse é um exemplo muito importante de como produção agrícola e preservação ambiental podem coexistir de forma equilibrada quando existe responsabilidade técnica e manejo adequado.

A aviação agrícola moderna trabalha cada vez mais com precisão, tecnologia e sustentabilidade. Hoje utilizamos sistemas avançados de navegação, controle de vazão, meteorologia e monitoramento operacional que permitem aplicações extremamente técnicas e seguras.

Além disso, a aplicação aérea muitas vezes reduz o amassamento das lavouras, diminui a compactação do solo e contribui para maior eficiência no uso de defensivos e insumos.

Quando observamos ambientes produtivos convivendo com fauna preservada, isso demonstra que é possível produzir alimentos em escala e, ao mesmo tempo, respeitar o meio ambiente. O grande desafio é justamente continuar evoluindo em tecnologia, pesquisa e boas práticas para fortalecer cada vez mais esse equilíbrio.

 

Antônio Oliveira – Agradeço por esta entrevista.

Hoana Almeida Santos – Eu que agradeço a oportunidade de falar sobre a aviação agrícola brasileira. É muito importante abrir espaços para apresentar à sociedade um setor que trabalha com tecnologia, inovação, sustentabilidade e que possui um papel fundamental na produção de alimentos e no desenvolvimento do país.

Muito obrigada.

 

Aviação Agrícola | Sindag | Hoana Almeida Santos | Tecnologia Campo | Sustentabilidade | MATOPIBA

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